Reconstituição Histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Reconstituição histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Criar é fazer existir, dar vida. Recriar é reconstituir. Como a criação e existência deste blogue tende a que tenha vida perene tudo o que eleva a alma portista. E ao recriar-se memórias procuramos fazer algo para que se não esqueça a história, procurando que seja reavivado o facto de terem existido valores memorávais dignos de registo; tal como se cumpra a finalidade de obtenção glorificadora, que levou a haver pessoas vencedoras, campeões conquistadores de justas vitórias, quais acontecimentos merecedores de evocação histórica.

A. P.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Falecimento de Sousa Santos (pai): Um clássico dos heróis do ciclismo nacional e do F C Porto…


Segundo tivemos conhecimento hoje por um órgão de imprensa diária, faleceu na segunda-feira dia 18 de Fevereiro, o antigo ciclista do F. C. Porto Joaquim Sousa Santos pai, como era conhecido o patriarca da família, por ter tido dois filhos ciclistas conhecidos pelo mesmo apelido de guerra das corridas. 

Desaparecido do mundo dos vivos aos 82 anos, Joaquim Sousa Santos foi antiga glória no ciclismo português da década de cinquenta, havendo-se notabilizado ao serviço do F.C. Porto. Pai do vencedor da Volta de 1979, Joaquim Sousa Santos (filho) e de José Sousa Santos, ambos antigos ciclistas já falecidos  (em 2003 e 2012, respetivamente), era o progenitor Sousa Santos natural de São João de Ver, do concelho de Vila da Feira, hoje terras de Santa Maria. Em cujo campo santo permanecerá desde esta quarta-feira, sepultado no cemitério de sua terra, conforme notícia difundida pelo Jornal de Notícias, do Porto.

Como homenagem, para dirigirmos umas palavras mais que justas em honra de seu passado, servimo-nos de uma vista de olhos por um pequeno livro que lhe foi dedicado na colecção "Ídolos do Desporto", em respetivo número editado em 1956.

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«Joaquim Sousa Santos, nasceu em S. João de Vêr, a 24 de Setembro de 1930. Desde pequeno que o garoto sonhava com uma bicicleta como a do padrinho, que era também seu irmão Manuel dos Santos; o qual lhe construiu uma bicicleta, não se poupando a trabalhos nem a esforços, e então depois colocou o miúdo sobre o quadro e zás! O Quim lá foi ! A minúscula bicicleta rodou, com o garotinho agarrado ao guiador, em pânico, até que se " espetou" contra um muro! Joaquim Sousa Santos com pouco mais de quatro anos de existência neste mundo atribulado, não ficou a chorar, apesar do susto, choque e arranhaduras. Era imensa a sua alegria por ter uma bicicleta. Era pequenina, mesmo feita para a sua idade, e apenas com duas rodas. Era igual à do irmão e padrinho, que corria numa bicicleta a sério vestindo a camisola do F.C. Porto; e na altura soltou uma gargalhada, dado que nada melhor do que uns trambolhões para começar… Veio a escola, o trabalho, mas a bicicleta ficou como a sua grande paixão. Filho de uma pobre família, cedo aprendeu um ofício, de sapateiro, no caso. Muito se sacrificou para poder realizar o seu sonho de ter uma bicicleta como a do padrinho, pois ganhava 20 escudos ($) por semana. Nas estradas, sempre que passavam ciclistas, ficava parado a olhar e a desejar seguir-lhes o exemplo, mas não havia dinheiro... Sousa Santos começou a apertar o cinto dia a dia e dos escassos 20$ retirava 5$ ou 6$ sempre que podia, pois muitas vezes comia só a tradicional "broa" nortenha . Com muito sacrifício juntou 700$ e surgiu a possibilidade de comprar uma máquina, mas faltavam 100$, que o padrinho Manuel dos Santos lhe emprestou. 

Estava-se em 1950. Sousa Santos com "sangue na guelra" sentia-se em forma: a sua "pasteleira " com guiador de bicicleta de corrida " voava" pelas ruas de S. João de Vêr.»

   

«Um dia pedalava despreocupado, quando lhe surgiram, numa curva, Joaquim Costa, Aniceto Bruno, Onofre Tavares e Amândio de Almeida, ciclistas da equipa do F.C. Porto em pleno trajeto de treino. Sousa Santos era conhecido daquele Joaquim Costa, e este conversou com ele enquanto pedalavam os cinco, já em bom ritmo. Então a certa altura, Sousa Santos ouviu Aniceto dizer: - Larga lá o " pato bravo" . Toca a andar.... Mas o " pato bravo" encheu-se de brio e acompanhou os " ases " do F.C. Porto, apesar de várias tentativas para o deixarem para trás. Foi mesmo ali e naquele dia que Aniceto Bruno convidou Sousa Santos a ingressar no F.C. Porto, tendo logo assinado contrato no dia seguinte, e daí passando a ser corredor profissional. A partir de então começou a preparar-se melhor, a sua alimentação era agora mais cuidada e rica, passou a ter bom material e horas para treino…» E teve uma carreira vistosa, cotando-se como um dos bravos do pelotão do ciclismo nacional.


Joaquim Sousa Santos ao longo da sua carreira, tanto a nível nacional como internacional (tendo de permeio estado na Volta a Marrocos, bem como teve 3 participações na Volta a Espanha), venceu várias provas e etapas, destacando-se sobremaneira um 27º lugar no Grande Prémio de Eibar, por ter tido um papel determinante no decurso dessa clássica internacional. 

No panorama dos quadros de honra em Portugal, sobressaem as suas posições de 2º classificado nas Voltas a Portugal de 1955 e 1957, e um 7º lugar na classificação geral individual na Volta de 1959. No ano anterior, na 21ª Volta a Portugal, em 1958, ganhou uma etapa, a 11ª tirada entre Lisboa e Torres Vedras, tal como, antes e depois, triunfou em diversas outras etapas, em diversificados anos, na Volta, além de, por mais que uma vez, ter andado com a camisola amarela de 1º da corrida . Como principal triunfo individual, e com a camisola do F. C. Porto, Sousa Santos venceu a clássica Porto-Lisboa, em 1957.

   
 = Sousa Santos (à direita da imagem) com Sousa Cardoso e Carlos Carvalho, formando trio da equipa vencedora do "Prémio Vilar" para o F. C. Porto. = 

Será de frisar, por fim, que Sousa Santos nos inícios de seus tempos áureos não alcançou melhores resultados por haver tido como adversários diretos uns Alves Barbosa e Ribeiro da Silva, dois ciclistas de categoria internacional e que em seu tempo comandavam as operações das corridas em Portugal. E depois por ter surgido sempre algum colega de clube melhor colocado, nas provas mais importantes.


...Isso também porque o ciclismo do F. C. Porto estava muito bem dotado de valores, constituída que era a equipa portista por elementos que, qualquer um deles, podiam vencer quaisquer provas e se equiparavam entre si, valendo por isso o forte jogo de equipa. Tendo Sousa Santos ajudado a vitórias individuais de colegas azuis e brancos, como foram as Voltas ganhas por Carlos Carvalho, Sousa Cardoso e Mário Silva, além de sua cota-parte nas vitórias coletivas.

  
Terminada a carreira como ciclista, em 1963, Sousa Santos manteve-se no seio do ciclismo como treinador do Ovarense e Benfica, além de episódicas colaborações no F. C. Porto - tendo chegado a incluir um triunvirato na orientação do F. C. Porto, junto com Onofre Tavares e Emídio Pinto. 

Porque não esquecemos os que ficam ligados ao F. C. Porto, aqui deixamos esta lembrançazinha escrita e ilustrada para com a memória de Sousa Santos, na medida do que para nós significa Portismo, em tudo. 



Nota Bene: A 13 de outubro de 1963 o FC Porto fez uma festa de despedida ao grande ciclista Sousa Santos, numa daquelas homenagens que nesses tempos eram feitas aos valores que deixavam marca. No caso feita a Joaquim Sousa Santos, pai, a quem só faltou uma vitória na Volta a Portugal, algo que inclusive esteve muito perto de vencer, apenas que nesse tempo havia um dotado Ribeiro da Silva, correndo pelo Académico. Essa glória de ficar incluído no rol dos vencedores da Volta  estaria reservada anos depois para o filho, também Joaquim, que conquistaria uma Volta a Portugal com a camisola do FC Porto na edição de 1979.

Armando Pinto
((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))

Obs.: - A propósito, confira-se ainda o que publicamos anteriormente aquando do falecimento do filho médico e vencedor duma Volta (clicando aqui) sobre Joaquim Sousa Santos filho...

A.P.

3 comentários:

  1. Também o vi subir as montanhaas do Norte! Parte mais uma glória Portista. Que descanse em paz.

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  2. Não conheci o Sousa Santos pessoalmente, apenas dele li e estudei diversas referências através da paixão pela leitura de tudo o que se relacione com a História do F. C. Porto. Quando eu era pequeno, a determinada altura nem simpatizava grande coisa com ele, pois apanhei com a sua passagem a treinador do Benfica, quando eu teria entre 8 ou 9 anos, sensivelmente. Mas isso passou depressa e passei a conecer o seu percurso anterior com a camisola do F. C. Porto. E para mim os grandes representantes do F C Porto foram, são e serão sempre como se da minha família forem.
    Soube agora, também, através de um comentário no meu mural do facebook, que afinal o Sousa Santos chegou em tempos a vir à minha terra - à Longra, na chamada baixa de Felgueiras. Conta o caso o meu conterrâneo sr. Carlos Ferreira, um bom Longrino emigrado em França, que recorda ter isso acontecido por meio do nosso comum amigo sr. Adriano Castro (entretanto já falecido e que levara para o ciclismo do F C Porto o felgueirense Artur coelho e, pelos anos de cinquenta ainda, para os juniores do futebol os também felgueirenses Silva e Freitas que tiveram algum destaque nas equipas de Artur Baeta...). Adriano Castro, a quem dediquei um artigo na revista do Conselho Cultural do F C P, chamada Mundo Azul, de Novembro de 2009, dizia, levou então alguns ciclistas do F C P à Longra, entre os quais Sousa Santos. Eu tinha conhecimento que ele organizara em tempos uns circuitos e levava lá grandes nomes das corridas de bicicletas (inclusive historio isso no livro que escrevi sobre a região, o "Memorial Histórico de Rande e Alfozes de Felgueiras", publicado em 1997), mas não fazia ideia que o Sousa Santos e outros que tais tivessem estado na minha terra.
    Paz à sua alma. e minhas condolências à família e amigos.

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  3. Como Familiar e amigo agradeço ao amigo Armando Pinto pela simpatia do seu comentário em referencia ao patriarca Sousa Santos e aos seus dois filhos Joaquim Sousa Santos e José Sousa Santos.

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