quarta-feira, 15 de maio de 2013

Rodrigues Teles: Historiador Pioneiro do F C Porto!

 

Corre suave brisa num ambiente capaz de fazer história e de nos ficar na memória, tal a temperatura agradável que sentimos ainda no ardor alegre daquela vitória sobre o clube do regime portuga - e, para mais, sobre a hora, mesmo em tempo oportuno… Enquanto aguardamos ainda melhor temperatura ambiental em caso de próxima confirmação. 

Neste tempo, quando se aguarda por novidades que tornem mais azul a realidade que paira no ar, e porque valorizamos a perpetuação da memória do que gostamos, queremos lembrar entretanto alguém com papel importante no perpetuamento dos fastos da existência do F C Porto, como foi o primeiro historiador do F C Porto. Pois se não tivesse havido esse alguém a começar, a ter dado início a algo tão trabalhoso, sem esperar por outros, muito mais se teria perdido nas brumas do tempo, como muito do que antes terá ficado envolto na penumbra do conhecimento. A pontos da confusão então havida na definição dos primeiros passos.

   

Quem aprecia a História do F C Porto e valoriza tudo o que proporciona estudo e aprofundamento da vida do F C Porto sabe que houve um Rodrigues Teles, esse, com efeito, o homem que iniciou a perpetuação histórica do grande clube azul e branco portuense, sendo quem afinal primeiro deu a conhecer e com detalhe a história do clube português que ostenta as cores que eram as do país ao tempo da respetiva fundação e seguinte revitalização. 

António Rodrigues Teles foi um empenhado adepto e distinto sócio do F C Porto, daqueles que se diz não ter sido um qualquer ou normal simpatizante, mas sim um Portista de alto coturno, por quanto procurou servir o clube do coração e o conseguiu dignificar. Chegou a estar ligado ao dirigismo dentro do clube, na criação do hóquei em campo,  e como representante clubista em órgãos associativos de raguebi e outras modalidades, enquanto na sua atividade publicista, como profissional de jornalismo, soube ser um paladino defensor do F C Porto. Intrometendo-se, enfim, a meter ombros à empreitada de passar a escrito o que andava na transmissão oral sobre a história da criação do clube, acabando depois por se documentar sobre tempos seguintes e dando inclusive um toque de atualização do que entretanto também viveu e ajudou a criar e manter.

   

Rodrigues Teles era um jornalista que virou historiador, e na verdade um grande historiador que desde muito cedo acompanhou e registou a atividade do principal Clube da Invicta, havendo conversado com alguns dos contemporâneos dos tempos antigos, então ainda vivos. Por isso escreveu de forma tão detalhada alguns dos primeiros anos e as actividades iniciais do F. C. Porto. Teve o senão de seguir demasiado à risca o que ouviu a adeptos mais antigos, alguns dos quais, naquele típico portuguesismo de aumentar um ponto ao contar um conto, quiseram ter mais protagonismo ou criaram convicções diversas, do que antes acontecera. Havendo Rodrigues Teles, após ler e ouvir testemunhos dalguma tradição oral, depois querido manter a versão inicial, escrita na história que publicara em 1933, visto que no seu trabalho da década de cinquenta já havia descortinado a anterior existência de 1893 - inclusive com a publicação da célebre carta que faz parte do 1º volume de permeio editado em 1955… Mas isso não é de admirar, afinal, como aconteceu sempre com trabalhos iniciais de investigação pioneira, na verdade, tal o que ocorreu séculos antes com as crónicas de Fernão Lopes e a história monumental portuguesa de Herculano, metendo mais tarde famosas celeumas em lendas fantasiosas de pelejas com mouros e o milagre de Ourique, etc e tal…

   
 - Capa do primeiro livro de Rodrigues Teles: "História do Foot-Ball Club do Porto: 1906-1933", edição "O Porto Desportivo", de 1933. 

Rodrigues Teles teve conhecimento da verdadeira fundação do F C Porto, mas não chegou a repor a verdade, totalmente, porque entretanto estava enraizada essa convicção transmitida. Apesar de até a data ser inventada, em virtude do tal 2 de Agosto de 1906 ter sido numa quarta-feira e não ao domingo, como diziam os que reforçavam a confusão. Mas teve o mérito de ser um acérrimo defensor da cronologia imediata, pois o pouco mais que foi sendo publicado em seu tempo, sobre tais assuntos memorandos, tinham a sua chancela. Além da sua disponibilidade em servir o clube, sempre que fosse necessário.


Portista e jornalista em publicações de âmbito nacional, como por exemplo no jornal “Sporting” da cidade do Porto, como correspondente no Porto do jornal “Os Sports”, depois “Mundo Desportivo”, e em Lisboa como representante do Norte na revista Stadium, publicou duas versões ou continuações de histórias do FC Porto, com paixão clubística. A primeira em 1933 e a segunda, por fascículos, em 1955. Estudo esse depois, no decurso de 1958, compilado em 3 volumes, por ordem cronológica da edição dos respetivos fascículos, que teve publicação completa em 1962.

   
- Capa interior da compilação de 1955, correspondente à original do I fascículo da História do F C Porto, de Rodrigues Teles. 

Esse mesmo António Rodrigues Telles, tal como se escrevia seu nome quando foi registado seu nascimento, em 1906, foi também membro da Assembleia Delegada do F C Porto e da Comissão Pró-Estádio, inaugurado em 1952. Escreveu posteriormente ainda uma brochura sobre os Internacionais do F C Porto na Seleção A de futebol (até 1968/69), aquando da colocação da Galeria dos Internacionais A do F C P na antiga sede, no hall do antigo museu (e que posteriormente esteve num espaço dos baixos do estádio das Antas), bem como dos anos da presidência de Pinto de Magalhães, com “6 Anos de Progresso na Vida Gloriosa do F C Porto”, editado em 1971; enquanto nos últimos anos de vida trabalhou ainda nos jornais sulistas Diário Popular e no Record, até haver falecido em 1975, quando tinha em mãos diversos trabalhos que ficaram inéditos.

   

Muito mais tarde, com certa colaboração de sua filha, Drª Maria Luísa Rodrigues Telles, ao tempo também diretora do clube, houve em 1987 uma reedição do I Volume da História do F. C. Porto, com promessa de também haver seguinte nova edição dos restantes volumes, numa edição programada pelo Conselho Cultural do F C P nesse tempo, o que não mais chegou a acontecer. Deu-se de seguida, por fim, a reposição da verdadeira data histórica, derivado ao laborioso estudo publicado por Rui Guedes com a Fotobiografia do F. C. do Porto, também publicada em 1987 – dado que em Assembleia Geral de 26 de Fevereiro de 1988 foi aprovada a confirmação da verdadeira data histórica da fundação do F. C. Porto, conforme provas confirmadas pela Biblioteca Nacional de Lisboa. E desde aí passaram a falar mais os documentos, os velhos e os novos comprovativos da vera História do F C Porto. Contudo sem nunca se olvidar a importância da iniciativa de Rodrigues Teles, sem renegar o que de bom se fez no passado, nem olvidar a autoria da importante Obra que esteve na base do que se foi sabendo do F. C. Porto de sempre. 

 

Como exemplo de como sabia ser arauto do F C Porto mesmo em terras de infiéis, damos à estampa uma das páginas mantidas de sua lavra em publicações da capital da nação, como era na lisboeta revista Stadium com as páginas Ecos do Norte e Stadium na Capital do Norte. Conforme se pode ver num artigo da referida publicação, em seu número de 16 de Novembro de 1949:

   

António Rodrigues Teles (1906-1975) foi e é um Portista Ilustre, um escritor-historiador que, na mais que necessária inventariação dos factos ligados à Vida do F C Porto, merece figurar sinceramente na verdadeira História do F C Porto. Mais, será de inteira justiça que ainda possa ser reconhecido, agora a título póstumo, com a classe de Sócio Honorário do F C Porto. Qual Heródoto da história antiga ou Alexandre Herculano de tempos medievos, Rodrigues Teles deixou seu cunho no passado imorredouro do F C Porto. Devendo-se-lhe os caboucos do estudo, donde surgiu à posteriori a pertinácia foto-documental do Rui Guedes,  numa soma que dá  o F C Porto a vencer desde 1893!

Armando Pinto 

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5 comentários:

  1. Não acompanhei em pormenor os seus trabalhos sobre a História do FC Porto, mas guardo dele a recordação de uma personagem empenhada e activa no jornalismo e na vida do clube, agora reavivada pela feliz iniciativa do sr. Armando Pinto. António Rodrigues Teles merece, de facto, ser considerado o pai da compilação dos dados históricos da vida inicial do grande clube do Norte e de Portugal.

    Remígio Costa.

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  2. Bem trabalhada a biografia, está um bom artigo, como nunca vi a justamente homenagear o Rodrigues Teles, um senhor do FCP. Mais nunca li nada com tanto pormenor deste primeiro historiador FCP. O Porto devia dar destaque a pessoas destas, porque como diz se não fosse ele não se sabia quase nada do antigamente. Penso que o Porto devia convidar alguns dos historiadores que lemos nos blogues e fazer uns trabalhos divididos de tantos em tantos anos, e podíamos ter desse modo coisas de tudo, e não como se diz que ninguém pouco sabe nada ou nada, que se perdeu muito de antigos museus, os livros andam em colecionadores e por haver gente que gosta disto, enfim. O meu obrigado Portista ao Armando Pinto por nos fazer conhecer a história do FCP.

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  3. Para os benfiquistas que têm a mania de porm tudo em dúvida, veja-se a desonestidade da história em que se baseia o clube da treta:
    «Ricardo Serrado, autor da História do Futebol Português, também contesta alguns dados sobre a fundação do Sport Lisboa, clube que deu origem ao actual Benfica.
    As histórias que existem, embora algumas tenham algum rigor e seriedade, são na sua maioria realizadas por sócios dos respectivos clubes, os quais, não obstante a sua competência e qualidades, não possuem metodologias científicas para produzir um trabalho historiográfico. E falta-lhe ainda isenção e idoneidade e o distanciamento devido para analisar e criticar de forma objectiva. Por outro lado, a maior parte dos trabalhos não se baseia em fontes coevas [da época], mas em referências bibliográficas que, por seu turno, já contêm erros. O caso mais evidente é o livro das Bodas de Ouro do Benfica, escrito por Mário de Oliveira e Rebelo da Silva, que é tido como uma bíblia por todos os autores benfiquistas, mas que, não obstante um trabalho notável do ponto de vista documental, é uma obra com muitos anacronismos e insuficiências ao nível do rigor histórico. Os erros contidos nesta obra reproduzem-se em todas obras do Benfica. E esta é uma das razões por que o futebol é um terreno fértil em mitos. A segunda ideia é que ciência se caracteriza pelo rigor, isenção, idoneidade e honestidade intelectual. Para a ciência ser profícua é necessário evolução, mudança, abertura e busca do conhecimento. Eu próprio escrevi um livro sobre Cosme Damião e agora encontrei novos dados.
    Antes de mais devo repetir que a ciência se caracteriza pelo rigor, isenção e honestidade intelectual. Como tal, devo dizer que o meu livro sobre Cosme Damião contém alguma informação que carece de revisão. Isto é, necessita de ser actualizada, nomeadamente um maior questionamento sobre a fundação do Benfica. Fiei-me em demasia nas obras já escritas. Deve-se também a informação errada que consta histórias dos clubes, que são, muitas vezes, mitificadas por má interpretação de uma fonte, desconhecimento da realidade da época ou anacronismo. Sempre tive algumas dúvidas sobre a acta da fundação do Sport Lisboa de 1904. Dúvidas que mantenho e que com o tempo tive tempo de reflectir e de maturar.
    O Sport Lisboa foi efectivamente fundado em 28 de Fevereiro de 1904. Todos os documentos públicos o comprovam. A acta que fala de uma reunião na farmácia Franco, essa sim, deixa-nos algumas dúvidas. Não posso pronunciar-me sobre a veracidade, porque isso diz respeito ao Benfica, mas esse documento é público e deve ser olhado com visão crítica. A primeira vez que esse documento aparece é no livro dos 50 anos do Benfica, em 1954. Toda a gente sabe como se escrevia farmácia em 1904.
    Não há nenhum documento do Sport Lisboa assinado por Cosme Damião.
    Ricardo Serrado
    Com “ph”… [era com ph e na acta está com f]
    O mito diz que essa acta foi escrita por Cosme Damião e que ele por modéstia não assinou. Esta explicação sempre me fez confusão, porque ou ele já sonhava ... ou não há nenhuma razão para não a assinar. Por outro lado, basta comparar a letra desta acta com outros escritos de Cosme Damião para perceber se foi ele ou não que escreveu a acta.
    (continua)

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  4. (continuação)
    ...porque ou ele (Cosme Damião)já sonhava ... ou não há(havia) nenhuma razão para não a assinar. Por outro lado, basta comparar a letra desta acta com outros escritos de Cosme Damião para perceber se foi ele ou não que escreveu a acta.
    E foi?
    Não posso dizer. Basta fazer a comparação. Até 1907 e 1908, quase todos os documentos do Benfica que são públicos são assinados por Manuel Gourlade, este sim o grande timoneiro do Sport Lisboa entre 1904 e 1908. Ele, José Rosa Rodrigues e Daniel Santos Brito são os três grandes mentores do Sport Lisboa. E não Cosme Damião. Não há nenhum documento do Sport Lisboa assinado por Cosme Damião. A acta está toda escrita com a mesma letra e não tem assinatura. Dá para perceber que não foi escrita por Manuel Gourlade. Cosme Damião também não comparece em nenhum treino de 1904 e os documentos disponíveis sobre os treinos não contêm o nome dele. Nunca encontrei qualquer indício de Cosme Damião ter sido fundador do Sport Lisboa. O que ele foi sim foi o grande impulsionador do Sport Lisboa e Benfica e talvez por isso tenha nascido o mito de que ele foi fundador do Sport Lisboa.
    Quer dizer que Cosme Damião passa a ter papel relevante só em 1908, quando o Sport Lisboa se funde com o Grupo Sport Benfica, dando origem ao Sport Lisboa e Benfica?
    Ele tem um papel importante a partir de 1907, quando o Sporting vai buscar oito jogadores do Sport Lisboa. Cosme Damião, Félix Bermudes e Marcolino Bragança apercebem-se da gravidade situação. No Verão, vê-se uma foto de dois deles com a camisola do Sport Benfica, que tinha sido fundado em 1906. É possível que eles tenham pensado em fechar o Sport Lisboa e ficar só com Sport Benfica. Mas acabam por fazer fusão entre os dois clubes em 1908, dando origem ao Sport Lisboa e Benfica…»

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  5. Em suma, os mouros vermelhos são uns mentirosos. Eles que inventam histórias, falsificam documentos, etc. tomam depois os outros pelo que eles são... e até o museu da luz apagada agora tem o nome de um inventado dirigente, que apenas se atrelou mais tarde... em 1908 - dando razão à verdadeira história e não ao mito da inventada historieta... quando na verdade foi criado aquele clube atual. enfim...!

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