segunda-feira, 9 de maio de 2016

Os Inícios do Hóquei no F C Porto e o 1º Internacional do Hóquei em Patins Portista - Acúrcio Carrelo.


Acúrcio foi um atleta do F C Porto que se distinguiu no posto de guarda-redes de futebol e como avançado em hóquei em patins. Curiosamente, atendendo às regras da escrita portuguesa, o seu nome era então escrito Acúrsio (assim mesmo, com “s”, como aparecia nos seus tempos de desportista, dando ideia que era a forma com que estava nos documentos oficiais). Tendo sido conhecido pelos anos cinquentas, do século XX, sobretudo como um guarda-redes importante no FC Porto, titular na equipa principal de futebol durante alguns anos, havendo então sido campeão nacional por duas vezes e feito parte do plantel azul e branco que conquistou para o F C Porto também duas Taças de Portugal (em cujas finais Acúrcio não jogou, impossibilitado por lesão). Entre essa atividade, Acúrcio foi ainda hoquista, tendo jogado pela equipa do F C Porto também de patins e stique, chegando mesmo a vestir igualmente a camisola da seleção portuguesa de hóquei enquanto hoquista azul e branco.


O hóquei em patins portista dava ainda pioneiras patinadelas e Acúrcio foi então o primeiro hoquista do F C Porto a ser escolhido para fazer parte duma seleção representativa do hóquei patinado nacional.

Assim sendo, a ligação de Acúrcio ao hóquei mistura com a história dos inícios do hóquei em patins no F C Porto.


Ora, o Hóquei em Patins havia entrado no FC Porto na década de quarenta, tendo sido em 1944 que o clube «tomou parte em provas oficiais, inscrevendo-se em todos os torneios regionais…» Constituíam a “equipa da fundação” os hoquistas António Castro Lacerda, Álvaro Almeida, António Joaquim Costa, António Brandão, Gualdino Leite, José Arches Carvalho, Delmiro Silva e Alberto Lima Ruella». Contudo, a sua existência sofreu, de permeio, uma interrupção nas atividades, tendo a secção sido depois reativada já a meio da década de cinquenta, por exigência dos sócios, «a pedido do público e até dos clubes adversários», devido ao fascínio que sua prática despertava no país a nível da seleção nacional e por reconhecimento de necessidade «da presença duma equipa portista nas competições, com vista a poder ser desenvolvida a modalidade…»


A equipa de hóquei em patins do Futebol Clube do Porto estreou-se em competições oficiais na 2ª Divisão Regional da Associação de Patinagem do Porto a 05/07/1956, no rinque das Cavadas (cedido pelo Estrela e Vigorosa), num jogo diante do CDUP, com vitória portista por 9-1. Sendo de acrescentar que os restantes jogos do FC Porto para o campeonato foram disputados no rinque do Lima (cedido pelo Académico), de modo a albergar o grande número de espectadores interessados. Como tal só na década de cinquenta foram obtidos os primeiros títulos, tendo nessa época o FC Porto vencido o Regional do Porto da 2ª Divisão correspondente à temporada desportiva de 1955 / 56 e então ascendeu a 1ª Divisão Regional em 1956/57.

= António Morais em seus primeiros tempos hoquistas =

Constituíam a equipa da época, entre outros, Campos (que veio do Paço de Rei), Luís Sousa Mota (do Paredes), Acúrcio Carrelo, Ruben Lopez, Morais e Abílio Moreira. 
Com a curiosidade de então estarem incluídos dois hoquistas-futebolistas, Acúrcio Carrelo e António Morais, os quais acumulavam a prática hoquista com o futebol (sendo então Acúrcio guarda-redes da equipa principal e Morais reservista também da formação futebolística do FC Porto), mais um aderente hoquista-basquetebolista, Ruben Lopez (este por sinal até jogador-treinador do basquetebol portista, nesse tempo). Tal como Morais, além do hóquei, também jogou no F C Porto pela equipa júnior de Andebol (que à época era escrito Handebol).

Entretanto, quando se davam esses iniciais momentos, e perante a estada de Acúrcio no futebol do F C Porto, vindo de Moçambique em 1955, e como ele praticara hóquei sobre patins enquanto vivera naquela então província ultramarina portuguesa, foi seduzido a também ajudar ao fortalecimento da existência do hóquei no Porto. Tendo sido assim que em Maio de 1957 se integrou na equipa de hóquei do F C Porto. Tanto ajudando a um maior impacto que a sua integração hoquista ficou registada na imprensa, motivando que se ficasse a saber à posteridade ter sido a 8 de maio de 1957, quando centenas de pessoas acorreram à apresentação de Acúrsio como avançado da equipa de hóquei em patins do FC Porto. E a verdade é que o excelente guarda-redes de futebol, que foi internacional pela seleção nacional de futebol, era igualmente bom no hóquei, pois também chegou a internacional na modalidade jogada a correr em patins de rodas.


Acúrcio Carrelo foi, então, o 1º internacional do clube nesta modalidade, tendo em 1957 feito parte da seleção portuguesa presente no Torneio de Montreux, marcando inclusive 6 golos; e depois no Europeu, nesse mesmo ano em Barcelona, onde fez 2 golos; sendo por fim selecionado para a Equipa da Europa que defrontou a Espanha, em cujo prélio contribuiu com 3 dos cinco golos dessa turma do chamado “Resto da Europa”.

A carreira do avançado Carrelo do hóquei não foi mais além, porém, por entretanto ter acabado essa dupla função com a chegada do profissionalismo ao futebol, enveredando Acúrcio apenas pela sua prestação como guarda-redes do futebol portista, entre outras situações, como aconteceu também com Morais (e ainda Pinho, igualmente “nosso” guardião de futebol, que ao tempo também acumulara na defesa da baliza do Andebol azul e branco).

Estava implantado o hóquei em patins no F C Porto. Até que evoluiu mais no clube com reforço da equipa já nos inícios da década de sessenta, ingressando na modalidade Joaquim Leite, oriundo do hóquei em campo do clube e durante algum tempo também atleta que acumulou as duas modalidades, mais Alexandre Magalhães, Brito, e outros, enquanto a meio da mesma década apareceram jovens valores como Hernâni e Cristiano. Começava finalmente a afirmar-se o hóquei portista no panorama nacional.
Cristiano era então já o maior representante do hóquei portista, a partir que seu valor começou a despertar o público azul e branco para o hóquei em patins.
Ao passo que depois houve primeiros internacionais juniores, integrantes da equipa principal mas com idades de juniores, Cristiano e Castro, que jogaram pela seleção portuguesa dessa categoria em 1968, e o hóquei portista atingia alto patamar com a conquista do “Metropolitano” da 1ª Divisão em 1969 – quando Jorge Nuno Pinto da Costa era dirigente na secção. Ano este em que quatro hoquistas do clube foram campeões europeus com a seleção de juniores: Cristiano, Castro, Fernando Barbot e António Júlio - dos quais três formados no próprio clube e todos eles os primeiros campeões europeus portistas.
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= Equipa dos Campeões Metropolitanos de 1969 =

A partir daí o hóquei foi crescendo dentro do clube, sempre na disputa dos primeiros lugares, até que, depois de sucessivos anos em que o título nacional fugira por “uma unha negra”, em 1981/82 houve conquista da europeia Taça dos Vencedores das Taças e em 1982/83 foi obtido o 1º lugar no Campeonato Nacional, acrescentando nesse ano mais outra Taça das Taças da Europa. Desde então o clube habituou-se a ser Campeão Nacional, com forte hegemonia (quantos os demais títulos nacionais…). Juntando mesmo títulos de Campeão Europeu (1985/86 e 89/90), Taça CERS (1993/94 e 95/96), Supertaça Europeia/Taça Continental (1985/86), mais Taças de Portugal, Supertaça Nacional, etc.

Feito um resumo do trajeto do hóquei, e como a parte mais saliente desses tempos de outrora se junta com a passagem de Acúrcio pelos rinques onde o F C Porto jogava hóquei, ilustramos este artigo narrativo com algumas imagens de Acúrcio e dos seus tempos de hoquista, embora juntando fotos dele como guarda-redes de futebol também. Mais algumas relacionadas com o historial do hóquei portista.

Ao género de parêntese, acrescente-se sobre Acúrcio: 

Desportista multifacetado, Acúrcio foi campeão nacional de futebol pelo F.C. Porto em 1955/56 como suplente utilizado, tendo ainda feito um jogo nesse campeonato; e já como guarda-redes titular em 1958/59. Tal como venceu duas Taças de Portugal, utilizado durante as respetivas eliminatórias. E também teve oito chamadas à Seleção Nacional A de futebol, além de ter sido internacional no Hóquei em Patins (como acima é descrito). Ficou ainda celebrizado como primeiro guarda-redes marcador dum golo de baliza a baliza, no célebre golo que marcou a José Pereira do Belenenses, no Restelo, estando em campo com um braço partido (sacrificando-se devido a não haver substituições na altura), em Março de 1958. Depois, em 1961 regressou a Moçambique para jogar pelo Ferroviário de Lourenço Marques, onde se sagrou Campeão Colonial nesse mesmo ano. E ali treinou também sua equipa de hóquei. De seguida viveu na África do Sul, onde treinou uma equipa de hóquei (Bez Valey). Regressado a Portugal, em 1979 treinou o Gil Vicente de Barcelos, em futebol e o seu Oeiras em hóquei. Faleceu no dia 9 de Janeiro de 2010.

Vem a talhe, como encerramento, rever uma página da revista Seleções Desportivas de Dezembro de 1978, onde Acúrcio foi recordado em duas peças jornalísticas, de cujo conteúdo (referente a uma história contada pelo antigo futebolista António Teixeira) se reproduz cópia da parte referente ao Acúrcio propriamente: 


Como retrospetiva, contada na primeira pessoa, repare-se numa passagem relembrada por Acúrcio à revista Bola Magazine, onde, fora alguma confusão de datas (sabendo-se que em 1958 já ele estava só dedicado ao futebol e inclusive fora internacional de hóquei em 1957), naturalmente por lapsos de memória derivado ao tempo passado, ele próprio deu mais algumas informações relacionadas:


Acúrcio Carrelo veio a falecer a 9 de janeiro de 2010. Na ocasião, em anterior blogue, "Lôngara" (que depois desapareceu da internet, por violação de alguém...), havia sido publicado pelo autor deste blogue, também, um artigo alusivo. Do qual guardamos em registo a imagem dum recorte jornalístico evocativo, que aqui voltamos a lembrar, por fim.


Armando Pinto

((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))

1 comentário:

  1. Mais um excelente artigo de indispensável leitura! Obrigado ao autor por partilhar as suas memórias e por apresentar factos e histórias sobre o nosso FC Porto. Assim se preserva o património azul e branco, bem como a sua mística.
    Um bem-haja,
    BMF

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