Reconstituição Histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Reconstituição histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Criar é fazer existir, dar vida. Recriar é reconstituir. Como a criação e existência deste blogue tende a que tenha vida perene tudo o que eleva a alma portista. E ao recriar-se memórias procuramos fazer algo para que se não esqueça a história, procurando que seja reavivado o facto de terem existido valores memorávais dignos de registo; tal como se cumpra a finalidade de obtenção glorificadora, que levou a haver pessoas vencedoras, campeões conquistadores de justas vitórias, quais acontecimentos merecedores de evocação histórica.

A. P.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Azumir - Primeiro "Bola de Prata" do FC Porto

Azumir…

… «Há 55 anos (faz agora, ao publicar isto), a 15 de dezembro de 1961, o FC Porto recebia o Belenenses (para o Campeonato Nacional de futebol da 1ª Divisão) e vencia por 5-0, no que seria o primeiro hat-trick do goleador Azumir. O avançado brasileiro cumpria a primeira época de azul e branco com assinalável sucesso, tendo terminado o campeonato com 23 golos, como melhor marcador da competição.»

Em 1961 tinha eu sete anos…

...Inícios do Portismo do autor destas linhas. E havia um jogador, que nunca vi em carne e osso, só conhecia de nome e fisionomia pelas gravuras dos jornais e cromo que tinha na minha caderneta. Mas muito admirava pelos meus sete anos, no acompanhamento do que já ia sentindo pelo Porto, sendo um goleador que vestia a camisola azul e branca, chamado Azumir. Ouvia o seu nome no rádio que estava junto à cabeceira da minha avozinha (que estava sempre na cama, paralítica) e ficava a pensar como seria ele vestido com a camisola linda que eu tinha numa fotografia, retirada dum papel que viera com qualquer coisa duma feira.

= Equipa do FC Porto em 1961 (a partir da esquerda, e desde cima) Américo, Arcanjo, Paula, Ivan, Barbosa e Virgílio; (em baixo) Jaime, Pinto, Azumir, Hernâni e Serafim.=

Azumir foi então um dos meus primeiros ídolos, do que me lembra desses tempos de primeiros anos de convivência infantil, de toda a ambiência que tive entre aulas, recreios e brincadeiras dessas eras de escola primária, durante a semana, e ensino da catequese, aos domingos. Em cujos dias santificados, mal acabavam as preleções das catequistas, nos lançávamos em loucas correrias para ainda presenciarmos o que restasse dos jogos de basquetebol da equipa da Metalúrgica da Longra, ao tempo a competir nos campeonatos corporativos, da coeva FNAT (mais tarde substituída, com a mudança de regime político, pelo Inatel). Como gostava de ouvir o povo assistente a gritar “Longra ao lado” (!), sinal de que haveria lançamento lateral a favor da equipa Longrina e a bola ficava na “nossa” posse. Pois a maioria das vezes nem sabia a quantos estava, ou seja qual era o resultado, mas pelas reações me apercebia se estávamos a ganhar ou não… E de tarde, como tivesse de ir à igreja para a reza do terço, estava em silêncio com a cabeça no jogo do Porto, da equipa principal de futebol do F. C. Porto, e mal o saudoso pároco Padre João tirasse a capa, com que dava a última bênção, eu e outros nos lançávamos para onde soubéssemos que havia um rádio a dar relato do jogo… Foi então, numa dessas tardes de domingo, que me ficou na cabeça um jogo em que o Porto venceu o Benfica em pleno estádio da Luz, por 2-1, com dois golos de Azumir. O jogador que nessa altura mais custava a sair nos rebuçados, sendo cromo raro para a coleção da caderneta que colecionávamos…

= Equipa do FC Porto da Época 1962/63 (Em cima, a partir da esquerda -.Américo, Virgílio, Ivan, Miguel Arcanjo, Festa, Joaquim Jorge, Paula e Rui; em baixo, pela mesma ordem - Carlos Duarte, Azumir, Jaime, Custódio Pinto, Hernâni Silva, Serafim e Perdigão.=

Quão mexia cá dentro sempre que ouvia o relatador, do som radiofónico, a berrar uma grande defesa do Américo - outro meu ídolo, até o que mais admirei sempre – e nas andanças da bola saber que lá estavam e andavam outros a mexer e remexer o esférico para a nossa causa, gravando-se no íntimo certa afeição aos nossos, que então compunham um naipe de grandes futebolistas, completada que era a equipa por nomes como Virgílio, Arcanjo, Festa, Jaime, Pinto, Hernâni…

Outra vez, ainda ficou mais nas recordações em ter ouvido entre Sportinguistas e Benfiquistas que nos sairia o pio numa ida a Alvalade. Mas não é que, aí, o Porto foi lá vencer, com mais um golo de Azumir...?! 

= Entrega oficial da Bola de Prata a Azumir =

Ora bem, Azumir, como tal, é nome que prevalece Tal a fibra de “artilheiro” que nos entusiasmou e perdurará como vencedor duma Bola de Prata, como melhor goleador do campeonato, a primeira que me lembro de saber que um jogador do Porto ganhou.

Os referidos cromos, de gravuras dos jogadores de futebol, vinham embrulhados em rebuçados baratos, a tostão, ou seja um centavo (em tempo de moeda do Escudo) – coisa que agora, com a moeda em Euros já não tem praticamente equivalência, pois a mais baixa unidade, de 1 cêntimo, corresponde a dois antigos escudos. E, naquele tempo, nos anos sessentas, com um tostão até se comprava bem mais coisas, também, bastando saber que com uma coroa, de cinco tostões (centavos), já se comprava um doce (equivalente aos pastéis de hoje em dia, que custam em média oitenta cêntimos, cerca de cento e sessenta escudos antigos), para o que servia a coroa que se ganhava em ir na “Cruzada” aos enterros...  

Sobre o tal jogo antes referenciado no antigo reduto do Sporting, num artigo inserido em Novembro de 2010 no “I On Line” ficou referenciado que então, além de «inúmeras defesas de Américo, é o FC Porto quem marca em contra-ataque, após bonita jogada entre Virgílio, Serafim e Azumir. Este, no final, anda eufórico e não se cala. "Quando assinei pelo FC Porto [Verão de 1961], disseram-me logo que os dois ''grandes'' de Lisboa eram … com quem nós deveríamos lutar pelo título. Ora, já ganhámos ao Benfica [2-1, a 3 de Dezembro de 1961] e agora ao Sporting, em pleno Alvalade. E eu marquei nos dois jogos! É uma sensação incrível", justifica Azumir, autor de dez golos até então. »

Depois, naturalmente, sabendo-se como no período salazarista as coisas se passavam, a todos os níveis, acabou por mais uma vez prevalecer o sistema vigente do regime… Mas logo aí, em nós, nos ficou a convicção que o Porto é que nos entusiasmava, como amantes da verdade dos dons dignos de apreço e da pureza de valores. E não mais esquecemos esse tal nome, do Azumir… Do qual, curiosamente, fica para a história que no período em que permaneceu no F. C. Porto «o avançado brasileiro marcou oito golos em oito jogos com Sporting e Benfica».

Ora bem, Azumir, como tal, é nome que prevalece. E merece ser evocado, tal a fibra de “artilheiro” que nos entusiasmou.


No livro “FC Porto Figuras & Factos  1893-2005”, de J. Tamagnini Barbosa e Manuel Dias, (editado pela Notícias do Douro, como produto reconhecido pelo F. C. Porto, em 2005), consta uma nota resumida, sem imagem de ilustração, onde se pode ler:

«Futebolista de nacionalidade brasileira, representou o F. C. do Porto no início da década de 1960. Ponta de lança eficaz, tanto a rematar com os pés como com a cabeça, foi o melhor marcador do Campeonato Nacional de 1961/62, com 23 golos (do total de 57 tentos obtidos pela equipa, que foi segunda na classificação).»


= Equipa do FC Porto em 1964 (Da esquerda para a direita, em cima - Otto Glória, treinador, ao tempo; Rolando, Joaquim Jorge, Paula, Festa, Almeida e Américo; em baixo, pela mesma ordem - Carlos Duarte, Valdir, Azumir, Custódio Pinto e Hernâni.=

Azumir, de nome completo Azumir Luís Casimiro Veríssimo, nasceu no Rio de Janeiro a 7 de Junho de 1935, no Brasil. Começou por jogar futebol no Madureira S.C. Passou depois pelo Bangu A.C., C.R. Flamengo, Botafogo F.R., Fluminense F.C. e C.R. Vasco da Gama. Em 1961 transferiu-se para o Futebol Clube do Porto e tornou-se o melhor marcador do campeonato dessa temporada de 1961/62 com 23 golos apontados, em 20 jogos disputados. Foi assim o primeiro jogador do F.C. Porto a vencer a “Bola de Prata”, embora os golos que apontou não tenham chegado para ultrapassar as condicionantes que pesaram na perda de mais um campeonato, dessa vez pela diferença de 2 pontos... Na época seguinte, Azumir voltou a ser o melhor marcador da equipa, com 17 golos, mas sem ter ficado à frente dos goleadores da prova, enquanto em 1963/64 já apenas marcou 3 golos em 5 partidas disputadas e acabou por rumar ao S.C. Covilhã, onde disputou a época de 1964/65. E daí em diante passou por outros clubes, até terminar a sua carreira pelas divisões inferiores dos campeonatos de Portugal.
Faleceu no Rio de Janeiro, dia 2 de dezembro de 2012.

= Azumir, ao receber o troféu Bola de Prata, correspondente à época de 1961/62.

Pois Azumir perdurará para sempre na história Portista como um bom avançado, marcador de golos, na senda do anteriores e posteriores compatriotas seus que fizeram furor na linha atacante das Antas, como houve antes o Jaburu, e depois o Amaury, o Djalma e o Flávio, e em expetativas criadas, mas de valor inferior, também um anteriormente razoável Humaitá, tal como muitos anos volvidos houve o Pena, de boa memória num ano só. E depois houve Hulk, etc. Até ao Kelvin do tal golo que valeu por muitos... Mas Azumir, o craque que veio do Vasco da Gama para marcar golos pelo Porto, cumpriu a sua função e foi nome gritado por todo o lado onde houvesse Portistas. Ficando memorável pela honra que deu ao F. C. Porto em ter o melhor goleador dum campeonato, depois que foi instituído um trofeu para essa distinção (embora através dum jornal conotado com o regime desportivo, o que já levou por vezes a não serem atribuídos golos a jogadores do FC Porto, para não vencerem, como num ano no caso de Domingos e noutro com Falcao...). 

= Plantel do FC Porto em 1964 (Em cima, a partir da esquerda -Rui, Rolando, Azumir, Paula, Miguel Arcanjo, Luís Pinto, Festa, Joaquim Jorge e Américo; em baixo, pela mesma ordem -Jaime, Artur Jorge, Custódio Pinto, Almeida, Rico, Carlos Baptista e Nóbrega. =

Este Azumir, o grande goleador que recebeu a Bola de Prata, em suma, ficou propriamente na retina memorial, além de tudo o mais e antes mesmo do que alcançou, ao tempo em que o autor destas recordações começou a sentir no peito um bater mais forte pelo F. C. Porto…!

Armando Pinto
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