Reconstituição Histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Reconstituição histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Criar é fazer existir, dar vida. Recriar é reconstituir. Como a criação e existência deste blogue tende a que tenha vida perene tudo o que eleva a alma portista. E ao recriar-se memórias procuramos fazer algo para que se não esqueça a história, procurando que seja reavivado o facto de terem existido valores memorávais dignos de registo; tal como se cumpra a finalidade de obtenção glorificadora, que levou a haver pessoas vencedoras, campeões conquistadores de justas vitórias, quais acontecimentos merecedores de evocação histórica.

A. P.

Mostrar mensagens com a etiqueta Bola de Prata. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bola de Prata. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 18 de setembro de 2018

António Teixeira e Domingos, entre “casos” da Bola de Prata d’ A Bola


Porque a história se não pode apagar, cá vai mais um tema que traz acima (ao de cima - para que se entenda melhor), como azeite, alguns casos sobre o mesmo tema. Algo daquelas celeumas que há sempre quem não goste que se avive (como há anos idênticas memorizações levaram a chorrilho de comentários adversos de pessoas do clube do regime e de seguida a ataques informáticos com que tais adversários conseguiram então anular o anterior blogue do signatário). Mas como é natural, podendo algo desaparecer, há sempre continuação da vida. E nada morre enquanto houver memória condizente.

Pois então, enquanto os jornais de feição pró-sistema desportivo fazem trabalho voltado aos interesses dos clubes de Lisboa e sobretudo contra-o-Porto, como se tem visto no Correio da Manhã, A Bola, Record, etc. e os comentadores televisivos abusam da sem vergonhosa desonestidade que diariamente faz com que se tenha de mudar de canais sistematicamente… por aqui não se perde memória, até porque não é costume haver no FC Porto amnésias, nem falsos amnésicos!

= Bola de ouro entregue a António Teixeira... já que o jornal A Bola lhe não atribuiu a Bola de Prata. (Ao lado a coluna alusiva ao Titulo Nacional de 1958/59)!

Assim, desta feita, não é tarde nem é cedo para recordar alguns factos em que os futebolistas do FC Porto foram prejudicados pelo jornal A Bola, vindo ao caso o trofeu Bola de Prata com que esse jornal desportivo lisboeta distingue anualmente os futebolistas com mais golos no campeonato de cada época, embora no caso segundo o que o pessoal desse jornal atribui como golos marcados aos jogadores. Sendo ainda relativamente de fresca memória um golo de Falcão que não contou para esse tal trofeu porque no jornal A Bola o atribuíram a outro… entre diversos casos. Dos quais, recuando mais alguns anos, ficará eternamente na memória o acaso de 1991, quando Domingos foi reconhecido no estrangeiro como marcador de mais golos no campeonato português, enquanto em Portugal o jornal A Bola deu maior número a Rui Águas, então do Benfica, por isso, obviamente. E anos antes, ainda, igual processo se passou com a subtração de golos a António Teixeira, em 1959, tendo o troféu por conseguinte ido parar às mãos do benfiquista José Águas… tudo em águas idênticas, da mesma cor. De tal forma que no Porto, como protesto e reconhecimento particular, foi entregue publicamente depois, ao António Teixeira, uma outra bola mas de ouro, em cerimónia ocorrida no dia da entrega das faixas aos campeões de 1958/59, nas Antas.

= Jogo de imposição das faixas aos Campeões Nacionais de 1958/1959 e homenagem a José Maria Pedroto e a António Teixeira. Pose de conjunto, estando todos com as faixas de campeões nacionais e os dois homenageados com camisola de jogo. Antes do início do encontro de cartaz dessa jornada festiva no Estádio das Antas (FC Porto 4 - 1 Furth EV - da República Federal da Alemanha). Em cima da esquerda para a direita: Dr. Paulo Pombo (Presidente), Virgílio Mendes, Lito, Carlos Alberto, Américo, Carlos Duarte, Luís Roberto, Monteiro da Costa, Béla Guttmann (treinador), Mário Amaral (diretor), Sarmento e Osvaldo Silva. Em baixo, pela mesma ordem: Teixeira, Morais, Gastão, Noé, Acúrcio, Perdigão e Pedroto. Faltam na foto (por se encontrarem na ocasião em trabalhos de seleções), entre outros dos também campeões, Hernâni, Miguel Arcanjo, Osvaldo Cambalacho, Pinho e Barbosa.=

Ora, nessa festa de homenagem a Pedroto e a António Teixeira, coincidente com a entrega das faixas aos campeões nacionais de 1959, foi também entregue a António Teixeira uma bola de ouro… com inscrição relativa ao facto, contendo referência aos golos, mais o resultado de todos os jogos do campeonato gravados e, como foi entregue a todos, também uma coluna em bronze prateado com o nome de todo o plantel campeão. Além de um ramo de flores que era para ser entregue pela filha do Teixeira, mas (segundo conta a própria, D. Maria Manuela Santos), estando lá no estádio, bem pequenina de 6 anos, teve de ser substituída para o efeito, por ter tido medo aos foguetes deitados na ocasião e desatado a chorar.


Enquanto isso, Pedroto foi homenageado também (como já aqui neste blogue recordamos noutro artigo), inclusive com o célebre “Homem da bandeira gigante” (Manuel Pina) a associar-se ao ato.


Claro que isso não passou em branco na opinião pública por esse tempo, embora quase em surdina como era quase fatídico à época. Mas sem ficar esquecido, a pontos de até anos mais tarde ter levado que no jornal A Bola dessem desculpas de mau pagador – como se pode ler na caixa recortada do mesmo periódico afeto ao Benfica.


Passados anos, sem que muita gente tivesse presente tal ocorrência, igual “surripianço” foi feito ao avançado Domingos, do FC Porto. Com certa curiosidade comprovativa do falhanço propositado de quem teve responsabilidade nesse ato do mesmo jornal. Como se pode ler e recordar através do que ao tempo ficou impresso na revista Dragões e agora se releva para memória perene.


E isto (mais), heemmm?!

Armando Pinto
((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Azumir - Primeiro "Bola de Prata" do FC Porto

Azumir…

… «Há 55 anos (faz agora, ao publicar isto), a 15 de dezembro de 1961, o FC Porto recebia o Belenenses (para o Campeonato Nacional de futebol da 1ª Divisão) e vencia por 5-0, no que seria o primeiro hat-trick do goleador Azumir. O avançado brasileiro cumpria a primeira época de azul e branco com assinalável sucesso, tendo terminado o campeonato com 23 golos, como melhor marcador da competição.»

Em 1961 tinha eu sete anos…

...Inícios do Portismo do autor destas linhas. E havia um jogador, que nunca vi em carne e osso, só conhecia de nome e fisionomia pelas gravuras dos jornais e cromo que tinha na minha caderneta. Mas muito admirava pelos meus sete anos, no acompanhamento do que já ia sentindo pelo Porto, sendo um goleador que vestia a camisola azul e branca, chamado Azumir. Ouvia o seu nome no rádio que estava junto à cabeceira da minha avozinha (que estava sempre na cama, paralítica) e ficava a pensar como seria ele vestido com a camisola linda que eu tinha numa fotografia, retirada dum papel que viera com qualquer coisa duma feira.

= Equipa do FC Porto em 1961 (a partir da esquerda, e desde cima) Américo, Arcanjo, Paula, Ivan, Barbosa e Virgílio; (em baixo) Jaime, Pinto, Azumir, Hernâni e Serafim.=

Azumir foi então um dos meus primeiros ídolos, do que me lembra desses tempos de primeiros anos de convivência infantil, de toda a ambiência que tive entre aulas, recreios e brincadeiras dessas eras de escola primária, durante a semana, e ensino da catequese, aos domingos. Em cujos dias santificados, mal acabavam as preleções das catequistas, nos lançávamos em loucas correrias para ainda presenciarmos o que restasse dos jogos de basquetebol da equipa da Metalúrgica da Longra, ao tempo a competir nos campeonatos corporativos, da coeva FNAT (mais tarde substituída, com a mudança de regime político, pelo Inatel). Como gostava de ouvir o povo assistente a gritar “Longra ao lado” (!), sinal de que haveria lançamento lateral a favor da equipa Longrina e a bola ficava na “nossa” posse. Pois a maioria das vezes nem sabia a quantos estava, ou seja qual era o resultado, mas pelas reações me apercebia se estávamos a ganhar ou não… E de tarde, como tivesse de ir à igreja para a reza do terço, estava em silêncio com a cabeça no jogo do Porto, da equipa principal de futebol do F. C. Porto, e mal o saudoso pároco Padre João tirasse a capa, com que dava a última bênção, eu e outros nos lançávamos para onde soubéssemos que havia um rádio a dar relato do jogo… Foi então, numa dessas tardes de domingo, que me ficou na cabeça um jogo em que o Porto venceu o Benfica em pleno estádio da Luz, por 2-1, com dois golos de Azumir. O jogador que nessa altura mais custava a sair nos rebuçados, sendo cromo raro para a coleção da caderneta que colecionávamos…

= Equipa do FC Porto da Época 1962/63 (Em cima, a partir da esquerda -.Américo, Virgílio, Ivan, Miguel Arcanjo, Festa, Joaquim Jorge, Paula e Rui; em baixo, pela mesma ordem - Carlos Duarte, Azumir, Jaime, Custódio Pinto, Hernâni Silva, Serafim e Perdigão.=

Quão mexia cá dentro sempre que ouvia o relatador, do som radiofónico, a berrar uma grande defesa do Américo - outro meu ídolo, até o que mais admirei sempre – e nas andanças da bola saber que lá estavam e andavam outros a mexer e remexer o esférico para a nossa causa, gravando-se no íntimo certa afeição aos nossos, que então compunham um naipe de grandes futebolistas, completada que era a equipa por nomes como Virgílio, Arcanjo, Festa, Jaime, Pinto, Hernâni…

Outra vez, ainda ficou mais nas recordações em ter ouvido entre Sportinguistas e Benfiquistas que nos sairia o pio numa ida a Alvalade. Mas não é que, aí, o Porto foi lá vencer, com mais um golo de Azumir...?! 

= Entrega oficial da Bola de Prata a Azumir =

Ora bem, Azumir, como tal, é nome que prevalece Tal a fibra de “artilheiro” que nos entusiasmou e perdurará como vencedor duma Bola de Prata, como melhor goleador do campeonato, a primeira que me lembro de saber que um jogador do Porto ganhou.

Os referidos cromos, de gravuras dos jogadores de futebol, vinham embrulhados em rebuçados baratos, a tostão, ou seja um centavo (em tempo de moeda do Escudo) – coisa que agora, com a moeda em Euros já não tem praticamente equivalência, pois a mais baixa unidade, de 1 cêntimo, corresponde a dois antigos escudos. E, naquele tempo, nos anos sessentas, com um tostão até se comprava bem mais coisas, também, bastando saber que com uma coroa, de cinco tostões (centavos), já se comprava um doce (equivalente aos pastéis de hoje em dia, que custam em média oitenta cêntimos, cerca de cento e sessenta escudos antigos), para o que servia a coroa que se ganhava em ir na “Cruzada” aos enterros...  

Sobre o tal jogo antes referenciado no antigo reduto do Sporting, num artigo inserido em Novembro de 2010 no “I On Line” ficou referenciado que então, além de «inúmeras defesas de Américo, é o FC Porto quem marca em contra-ataque, após bonita jogada entre Virgílio, Serafim e Azumir. Este, no final, anda eufórico e não se cala. "Quando assinei pelo FC Porto [Verão de 1961], disseram-me logo que os dois ''grandes'' de Lisboa eram … com quem nós deveríamos lutar pelo título. Ora, já ganhámos ao Benfica [2-1, a 3 de Dezembro de 1961] e agora ao Sporting, em pleno Alvalade. E eu marquei nos dois jogos! É uma sensação incrível", justifica Azumir, autor de dez golos até então. »

Depois, naturalmente, sabendo-se como no período salazarista as coisas se passavam, a todos os níveis, acabou por mais uma vez prevalecer o sistema vigente do regime… Mas logo aí, em nós, nos ficou a convicção que o Porto é que nos entusiasmava, como amantes da verdade dos dons dignos de apreço e da pureza de valores. E não mais esquecemos esse tal nome, do Azumir… Do qual, curiosamente, fica para a história que no período em que permaneceu no F. C. Porto «o avançado brasileiro marcou oito golos em oito jogos com Sporting e Benfica».

Ora bem, Azumir, como tal, é nome que prevalece. E merece ser evocado, tal a fibra de “artilheiro” que nos entusiasmou.


No livro “FC Porto Figuras & Factos  1893-2005”, de J. Tamagnini Barbosa e Manuel Dias, (editado pela Notícias do Douro, como produto reconhecido pelo F. C. Porto, em 2005), consta uma nota resumida, sem imagem de ilustração, onde se pode ler:

«Futebolista de nacionalidade brasileira, representou o F. C. do Porto no início da década de 1960. Ponta de lança eficaz, tanto a rematar com os pés como com a cabeça, foi o melhor marcador do Campeonato Nacional de 1961/62, com 23 golos (do total de 57 tentos obtidos pela equipa, que foi segunda na classificação).»


= Equipa do FC Porto em 1964 (Da esquerda para a direita, em cima - Otto Glória, treinador, ao tempo; Rolando, Joaquim Jorge, Paula, Festa, Almeida e Américo; em baixo, pela mesma ordem - Carlos Duarte, Valdir, Azumir, Custódio Pinto e Hernâni.=

Azumir, de nome completo Azumir Luís Casimiro Veríssimo, nasceu no Rio de Janeiro a 7 de Junho de 1935, no Brasil. Começou por jogar futebol no Madureira S.C. Passou depois pelo Bangu A.C., C.R. Flamengo, Botafogo F.R., Fluminense F.C. e C.R. Vasco da Gama. Em 1961 transferiu-se para o Futebol Clube do Porto e tornou-se o melhor marcador do campeonato dessa temporada de 1961/62 com 23 golos apontados, em 20 jogos disputados. Foi assim o primeiro jogador do F.C. Porto a vencer a “Bola de Prata”, embora os golos que apontou não tenham chegado para ultrapassar as condicionantes que pesaram na perda de mais um campeonato, dessa vez pela diferença de 2 pontos... Na época seguinte, Azumir voltou a ser o melhor marcador da equipa, com 17 golos, mas sem ter ficado à frente dos goleadores da prova, enquanto em 1963/64 já apenas marcou 3 golos em 5 partidas disputadas e acabou por rumar ao S.C. Covilhã, onde disputou a época de 1964/65. E daí em diante passou por outros clubes, até terminar a sua carreira pelas divisões inferiores dos campeonatos de Portugal.
Faleceu no Rio de Janeiro, dia 2 de dezembro de 2012.

= Azumir, ao receber o troféu Bola de Prata, correspondente à época de 1961/62.

Pois Azumir perdurará para sempre na história Portista como um bom avançado, marcador de golos, na senda do anteriores e posteriores compatriotas seus que fizeram furor na linha atacante das Antas, como houve antes o Jaburu, e depois o Amaury, o Djalma e o Flávio, e em expetativas criadas, mas de valor inferior, também um anteriormente razoável Humaitá, tal como muitos anos volvidos houve o Pena, de boa memória num ano só. E depois houve Hulk, etc. Até ao Kelvin do tal golo que valeu por muitos... Mas Azumir, o craque que veio do Vasco da Gama para marcar golos pelo Porto, cumpriu a sua função e foi nome gritado por todo o lado onde houvesse Portistas. Ficando memorável pela honra que deu ao F. C. Porto em ter o melhor goleador dum campeonato, depois que foi instituído um trofeu para essa distinção (embora através dum jornal conotado com o regime desportivo, o que já levou por vezes a não serem atribuídos golos a jogadores do FC Porto, para não vencerem, como num ano no caso de Domingos e noutro com Falcao...). 

= Plantel do FC Porto em 1964 (Em cima, a partir da esquerda -Rui, Rolando, Azumir, Paula, Miguel Arcanjo, Luís Pinto, Festa, Joaquim Jorge e Américo; em baixo, pela mesma ordem -Jaime, Artur Jorge, Custódio Pinto, Almeida, Rico, Carlos Baptista e Nóbrega. =

Este Azumir, o grande goleador que recebeu a Bola de Prata, em suma, ficou propriamente na retina memorial, além de tudo o mais e antes mesmo do que alcançou, ao tempo em que o autor destas recordações começou a sentir no peito um bater mais forte pelo F. C. Porto…!

Armando Pinto
((( Clicar sobre as imagens, para ampliar )))