Estando um dia assim de fazer a vida parecer acabrunhada, de
semblante ambiental escuro e com humidade a entrar pelo corpo e mesmo na alma, perante
morrinhenta chuva e alguma ventania, há contudo desejo ansioso pelo jogo que
pode ter importância decisiva no campeonato principal do futebol português e
como tal o sangue vai fervendo no ânimo mental.
O que faz lembrar outros tempos em que quem não fosse ao estádio e tivesse de seguir tudo pelos relatos radiofónicas, tinha de imaginar o que se passava pelo que berravam os sons saídos de roufenhos aparelhos de rádio dessas eras e saber destrinçar o que mentiam certos relatadores, enquanto do cenário haveria de ser no dia seguinte pela visão das fotogravuras dos jornais, como que metendo a cabeça entre guarda-chuvas da disposição impressora.
Ora foi assim num destes dias que eu, catraio ainda de primeiros
tempos de escola, tive em mãos os meus primeiros livros do FC Porto, uns
livrinhos dedicados a jogadores do Porto. Daqueles livros de bolso da antiga
coleção Ídolos do Desporto, ao género de revistas pequenas nesse tempo de
muito apreço entre os simpatizantes do fenómeno futebolístico. Tendo logo lido esses
livrinhos, lido e relido vezes a fio, já quase ficando desde então a saber de
cor a vida desses meus ídolos, o “Américo e o Pinto do Porto”. E lembra agora o
caso porque estava um dia assim, tristonho, tendo eu com isso nem me apercebido
do cinzento do dia, com os olhos rasos do azul que emanava das páginas.
Passaram-se muitos anos e como em pequeno não pude comprar
todos os livros que queria, dos que tinham coisas do FC Porto, ao longo do
tempo fui depois amealhando exemplares possíveis da mesma coleção original,
iniciada em 1956 e finda em 1972 (a que se seguiu, anos volvidos, uma nova
série, já de capa a cores, que também tenho, essa completa). Faltando-me ainda
dois exemplares, da antiga, por sinal daquele tempo em que eu, criança de
escola, não podia comprar tudo o que queria. Mas está quase. E assim, neste
chuvoso e ventoso dia, como há cerca duns cinquenta anos e pico, também o próprio
dia passa com o semblante azul da esperança. Dando largas à visualização dessa
coleção particular, fixando-a aqui em imagens da sucessão dos respetivos
números, a histórica coleção “Ídolos do Desporto”.
Armando Pinto
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