Um destes dias, numa interessante peça jornalística assinada
pelo jornalista Pedro Cadima, o jornal O Jogo deu à lembrança pública uma entrevista
evocativa do antigo ciclista Amândio Cardoso, um campeão do ciclismo do FC Porto
que em 1951 venceu o Porto-Lisboa e em 1952 foi Campeão Nacional de Ciclocross. Sendo que o mesmo histórico ciclista,
em seu tempo exímio trepador e rolador em terrenos difíceis, corre depressa
agora para dentro de poucos meses completar a bonita idade de 100 anos de vida,
vem a propósito registar esse facto com uma memorização de sua carreira,
através de partilha da mesma entrevista do jornal; para de seguida se relembrar uma memória de seu
título nacional, conforme já foi há tempos publicado neste blogue; e por fim regista-se alguns de seus títulos conquistados.
Assim sendo, eis o trabalho jornalístico, desde o título até
ao corpo do mesmo texto:
O relojoeiro que trepou pelo FC Porto e vai para o
centenário
(O JOGO - Pedro Cadima - 25 março 2026)
- «Amândio Cardoso ainda abre o livro da vida com quase 100
anos. Não descola do lugar de trabalho e mantém bem vivas as recordações das
suas conquistas nos anos 40 e 50.»
(imagem O Jogo - Amândio Cardoso Créditos:D.R.)
« Amândio Cardoso caminha para o centenário, maratonista da
vida, trepador noutros tempos, inesgotável motor das bicicletas, sendo campeão
nacional de Ciclocross em 1952, participando em quatro voltas a Portugal, de
1949 a 1952. Amândio vive a contar histórias, acertando ideias e horas,
inseparável dos relógios, pontual na sua lei laboral, tendo assinatura de três
ourivesarias no grande Porto. É um resistente, homem de aço, como era a correr
nas estradas e nos terrenos mais agrestes, sendo um embaixador competitivo do
FC Porto por anos de filiação aos dragões no ciclismo.
Em São Mamede de Infesta, contam-se os dias para 28 de
junho, quando abraçar os 100 anos com um legado invejável, não deixando de ser
visto pelos clientes do seu espaço, consertando algo, acenando ao longe,
prestável para qualquer tipo de conversa. Aos oito, via o seu FC Porto ser
campeão pela primeira vez, estávamos na época 1934/35. Hoje orgulha-se de ter
sido testemunha viva de todo o percurso triunfante azul e branco, com um total
de 30 títulos de campeão nacional no futebol e um herói que supera Pavão,
Cubillas, Madjer e Futre. O primeiro encanto prevalece. "Sempre fui
portista de ver jogos a partir dos meus oito anos, depois fico portista mais a
sério aos 19, quando passo a ser atleta de ciclismo do clube. O Pinga é o herói
desse tempo, um jogador impressionante que também morava no Carvalhido. Era um
espetáculo, muito forte, nem que lhe batessem, ele passava por todos",
atira em conversa com O JOGO, aceitando mergulhar às profundezas da história,
de um craque que já habita em poucas memórias.
O atleta também se forjava, duro no pelotão. "Andava de
bicicleta, mas também fazia corridas a pé. Depois fiz provas como principiante
e fui ganhando, inclusive uma na Avenida dos Combatentes. O FC Porto
interessou-se por mim, já tinha o Moreira de Sá. Tentaram também levar-me para
o Boavista, mas quis o FC Porto", lembra, dignificando a partir daí esse
manto especial pelas estradas do país, sem nada temer, trepando desejos.
"Corri vários anos e só defendi o FC Porto. Ganhei prémios de montanha,
subia bem e ganhei uma etapa de Bragança à Covilhã, dentro da Serra da Estrela.
Treinei muito para uma chegada numa viela a pique. Ganhei a uma série de
espanhóis", conta Amândio Cardoso, não deixando fugir um título nacional
de Ciclocross. "Participava em algumas provas aqui no Porto, em tudo o que
eram terrenos duros. Andava com a bicicleta às costas", rebobina, não
largando essa cassete de feitos inestimáveis. Um prazeroso baú construído com
muita resiliência e ferocidade e um desafio constante aos limites.
"Trabalhava e os outros não. Os meus colegas e adversários apenas corriam,
eu sustentava a casa, ao mínimo contratempo, não treinava. Eles treinavam
sempre que queriam, eu tratava dos relógios", observa.
Viu a glória em Gelsenkirchen e Sevilha
Amândio Cardoso abre o livro na mesa, de pé sem ajuda,
inquieto na falta de mais uma fotografia, impondo destreza nos cantos da loja e
oficina de trabalho. Cartões acumulam-se com significado apropriado, dentro de
uma melodia de afetos por uma camisola que lhe fez a vida. "Vi os maiores
de sempre como Cubillas, Pavão, Madjer e Futre, mas continuo a ficar com Pinga.
Não esqueço Viena, o que vivi ali, a festa que foi. Não esqueço os meus
encontros com o Zé do Boné [Pedroto] e o amigo Pinto da Costa. Mais do que meu
presidente, foi sempre um amigo, aparecia muito no ciclismo. O FC Porto ganhava
muito e ele era presente", sublinha o afamado relojoeiro, ciente dos belos
brindes da fama para a prosperidade alcançada.
"Como atletas do FC Porto, éramos reconhecidos e eu,
por vezes, queria passar despercebido. Como corria e trabalhava, essa situação
fez muito bem ao negócio, ganhei clientes", relata Amândio, munido de
outras efemérides preciosas. "Carreguei a maior das bandeiras na
inauguração das Antas em 1952 e estive em 1948 no Campo do Lima, na vitória de
3-2 sobre o Arsenal, que rendeu a grande Taça em prata, que está no nosso
museu. Também vi a equipa argentina do San Lorenzo na sua digressão
espetacular. Ganhou aqui por muitos [4-9]. Eram formidáveis, faziam tudo bem e
ainda ganharam por maior margem a Portugal", conta o antigo ciclista, que
ostentava créditos de campeão nacional quando o recinto das Antas se
engrandeceu na Invicta.
Não sobram dúvidas de uma vida cheia. "Também pude
estar nas finais europeias do FC Porto, de Viena, Gelsenkirchen e Sevilha. Só
não fui à última de André Villas-Boas", junta Amândio Cardoso, sócio 129,
seguindo como indefetível portista às portas do centenário: "Sempre fui doido
pelo clube. Mas hoje preservo-me e não vejo tanto os jogos. Acredito muito que
vai voltar a ser campeão". »
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Entretanto, relembra-se a evocativa narração do título de Campeão de Ciclocross, aqui neste blogue “Memória Portista”, em “Efeméride: Vitória de Amândio Cardoso no Campeonato de Ciclocross em 1952” - artigo publicado a 13 de janeiro de 2020:
Amândio Cardoso, entre diversos títulos nas classificações coletivas (“por
equipas”), foi Campeão no Campeonato Nacional de Contra-relógio por equipas em Independentes,
no ano de 1950 (FC Porto Campeão com Aniceto Bruno, Amândio Cardoso e Joaquim Costa); e
fez parte em 1950 e 1951 da equipa do FC Porto que triunfou coletivamente nos 1.º
e 2.º Circuito de Felgueiras, bem como nas vitórias por equipas na Volta a
Portugal de 1949, 1950 e 1952. Ao passo que individualmente foi o vencedor do
Porto-Lisboa em 1951, entrando assim na lista dos grandes vencedores dessa
clássica.
Armando Pinto
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