
Este dia 5 de março de 2026 fica assinalado com a morte
do grande escritor António Lobo Antunes, um dos melhores da língua portuguesa e
até possivelmente o melhor da parte final do século XX e princípios do XXl. Pelo menos
para mim um dos poucos escritores contemporâneos que aprecio ler.
Ora, para lá de tudo que se diga e escreva sobre ele - que se
torna desnecessário repetir, por hoje andar por toda a comunicação social tudo
e mais alguma coisa sobre o mesmo - há aqui um facto a registar, por Lobo Antunes haver em
tempos assumido ter sido admirador do antigo guarda-redes do FC Porto Frederico
Barrigana. Sem Lobo Antunes ser Portista, entenda-se. Não interessando saber de
que lado ele é, se é dos que só veem vermelho à frente dos olhos e da barriga ou dos que pensam que
são viscondes e nem sabem a triste figura que fazem, só porque sabem que têm o
sistema a amparar e branquear as atrocidades e má-criadices. Embora julgando saber-se que ele pendia para o lado dos vermelhos. Mas interessando aqui, no caso de Lobo Antunes, que ele sabia ver as coisas e não ia em cantigas de
regimes e sistemas. Bem como, honesto que era, dava valor ao que via ter valor. Como o Barrigana.

Pois o Lobo Antunes que dá gosto ler, escreveu uma crónica
inesquecível, sobre sua admiração por Barrigana. Dizia-se popularmente que Barrigana era um guarda-redes "maluco", no sentido de destemido e desinibido, não apenas dentro do campo. Sendo certo que deixou obviamente a sua marca na história do futebol português. Também Lobo Antunes deixou marca profunda, com seu feitio sobreposto à arte de escrever. Tanto que ao seu ídolo da bola dedicou uma crónica, que ficou famosa e tem sido citada em diversos locais de diversos modos e feitios.
Faz parte esse texto do livro de Crónicas daquele clássico escritor, admirador do grande guarda-redes do FC Porto. Sendo tal crónica apreciável no cunho literato desse escritor de renome, ainda que algo difícil de ler nalgumas das suas narrativas, enquanto noutras tem partes encantadoras e que fazem escorregar a leitura para lembranças a condizer com coisas de quem estiver a ler.
Atente-se então na crónica intitulada “O Grande Barrigana”, por Lobo Antunes. Um naco de prosa admirável.
«De há quarenta anos para cá, com entusiasmo, fervor e admiração, vi jogar quase todos os grandes guarda-redes portugueses, do inesquecível Azevedo, "Hércules do Barreiro", a José Pereira, o "Pássaro Azul". Vi o gigantesco Ernesto, do Atlético, o terror dos extremos, vi Abraão, do Olhanense, vi Cesário, do Sporting de Braga, na tarde de glória, no pelado do Benfica, em que defendeu todos os remates de Palmeiro, Arsénio, Águas e Rogério, vi Capela, da Académica, e Sebastião, o loiro Nero do Estoril Praia, célebres pelos seus voos acrobáticos, vi o fantástico Aníbal, de poupa trabalhada a brilhantina, vi o caprichoso Carlos Gomes pontapear fotógrafos antes de se transferir para Espanha e de ameaçar o presidente do clube, quando não lhe pagavam, com a irónica frase 'no hay dinero no hay portero', acompanhei o Vital, do Lusitano de Évora, que sulcava a relva com o calcanhar pensativo da bota, para marcar o centro da baliza….»
(Claro que António Lobo Antunes, como benfiquista e adepto de futebol mais de outros tempos, não conheceu o valor de Américo, por ter sido espetador mais de jogos em campos da zona de Lisboa e Vale do Tejo, onde os do Norte também calhassem de ir em dias dele lá ir… Tendo conhecido Frederico Barrigana melhor já em África, quando esteve na tropa e o Barrigana treinava a miudagem lá onde Lobo Antunes cumpria tempo de serviço militar por sítios da guerra colonial.)

«E todavia, para meu desgosto e frustração, nunca assisti a nenhum jogo do meu ídolo Frederico Barrigana, o 'Mãos de Ferro', keeper do FC Porto. No intuito de compensar tal desdita, recortava, embevecido, do jornal, os instantâneos que o mostravam a saltar com um avançado, apertando-lhe contra as partes o joelho dissuasor (porquê partes se não inteiras?), a fim de esfriar os ímpetos assassinos do adversário; admirava-lhe a calvície e o boné que a cobria numa exatidão de cápsula; colecionava-lhe as entrevistas e escutava, boquiaberto, na telefonia do meu pai, de dedos em concha na orelha, os relatos de Artur Agostinho, que, aos domingos, às 3 da tarde, narrava em tom épico, as proezas do grande Frederico Barrigana num estádio a rebentar de público. Aos 12 anos, se eu não desejasse, com tanta paixão, tornar-me escritor, quereria ter sido o "Mãos de Ferro". Mas, claro, possuía o sentido das limitações suficiente para compreender que não se pode querer ser o grande Frederico Barrigana: é-se, por dom divino, perfeito como ele só, desde o início. (…)»

(Então, quando estava no serviço militar no Ultramar português,
ao tempo, o Lobo Antunes, que nunca tinha visto, nem a jogar, o seu ídolo guarda-redes
do Futebol Clube do Porto, Frederico Barrigana, quando o viu foi num lugar nada
comum, onde ele nunca desconfiou que o encontraria, como foi num campo de
futebol em Africa enquanto Barrigana ensinava crianças a jogar. Aí, Lobo
Antunes, se em criança já o admirava, a partir desse dia ficou mais fã dele.)
Ora, António Lobo Antunes foi um senhor na escrita, tal como
o Barrigana era diante das balizas a lançar-se para agarrar a bola.
Ambos artistas em seus misteres, que dava gosto ver e ler.
Armando Pinto
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