Nestes dias ainda de inverno e enquanto o ciclismo portista
também ainda está em período de preparação para a época de renovação que se
aproxima, será tempo de aflorar lembranças de uma curiosidade antepassada,
relacionada com o ciclismo, essa modalidade que este ano está de volta ao F C
Porto. Melhor dizendo, o Futebol Clube do Porto tem outra vez ciclismo. Vindo a talhe
recordar uma variante das provas, enquanto se espera pelo raiar das corridas ao
longo das estradas, qual sol de primavera a fazer desabrochar as camisolas
azuis e brancas entre o pelotão.
Então, reportemos, agora, sobre uma sua variante de inverno
– o chamado “Ciclocross”, um tipo de corrida ao jeito de corta-mato em
bicicleta. Hoje apenas quase uma recordação para os mais velhos, antigos
atletas ou amantes de história do desporto dos pedais. Pois, em tempos
passados, detinha atenções na época de inverno essa especialidade ciclista,
aproveitada na transição do defeso das competições e preparação de pré-época.
Sendo então o Ciclocross uma vertente do ciclismo de estrada que tinha grande
importância, vinda dos alvores da prática do ciclismo, embora em Portugal
tivesse tido apogeu mais nas décadas de cinquenta e sessenta, pelo menos, até
finais dos anos oitenta, do século XX. A adesão era de tal maneira que, durante
anos a fio, havia Campeonatos Regionais e Nacionais muito disputados.
Era uma maravilha, dentro do encanto que pairava naqueles
românticos tempos de meio do século passado, esses e outros acontecimentos,
revertendo ao caso desta modalidade tão antiga, praticada só nos meses
invernosos, quando o ciclismo de competição ainda não ia para a estrada (antes do começo da
época das corridas de longos percursos pelas estradas fora, quer as
domingueiras da Associação, como depois os Grandes Prémios em etapas).
Nesse período a atividade ciclista era efervescente, nas
provas em que os ciclistas tinham de vencer dificuldades em vias estreitas e
acidentes naturais dos percursos, subindo e descendo ladeiras, montando nas
bicicletas em terrenos enlameados, passando por escadas e até penedias, sendo
inclusivamente obrigatório a existência de zonas que obrigavam a desmontar da
bicicleta, tudo num autêntico fortalecimento muscular. Figuras ilustres desses
tempos, de ciclistas de nomeada, integravam com sucesso tais provas, cujas
imagens que sobrevivem mais parecerão jurássicas, à luz das vistas atuais.
Ora, como na época o F. C. Porto detinha certo poderio no
ciclismo, o Ciclocross fazia parte do calendário dos ciclistas azuis e brancos,
também, ajudando ao fortalecimento necessário para o resto da época. Havendo
diversos ciclistas Portistas que eram especialistas, com relevo para os mais
poderosos fisicamente, pelo desgaste que provocava e força muscular necessária.
Acontecia, porém, que como no sul do país não havia muitos corredores
especializados nisso, nem gostavam muito porque era um desporto onde se
sujavam, com lama e poeira misturadas ao suor, a partir de determinada altura o
Ciclocross passou a ser mais apreciado no Norte, sucedendo-se as provas a nível
regional e nacional em terrenos da urbe portuense, como por exemplo nos
carreiros do parque do Palácio de Cristal, ou noutros sítios apropriados dentro da cidade ou nos
arredores da Invicta. Tendo durante muitos anos havido bons especialistas no F
C Porto. E, entre os diversos corredores de tarimba dessas corridas de “cross”,
lembramo-nos, por exemplo, de Sousa Cardoso, o vencedor da Volta a Portugal de
1960, ciclista de estampa atlética saliente que teve apetência por essa competição
de especial esforço físico. Assim como, mais tarde, sobressaiu Joaquim Leão,
corpulento ciclista que venceu a Volta a Portugal em 1964, a prova-rainha de
estrada, e foi durante anos campeão Regional e Nacional de Ciclocross, como
também José Pinto, José Azevedo, Alberto Carvalho, e outros mais.
Em homenagem dessas curiosas lembranças, são precisamente de
Sousa Cardoso e Joaquim Leão as imagens que se juntam.
Atualmente, o Ciclocross não tem grande impacto e é
praticado quase em modo amador, tendo desaparecido praticamente esta referida
variante temporã (salvo raras exceções, como ultimamente este género do
ciclismo tem sido reavivado na Associação de Ciclismo do Porto, contudo sem
atrair os escalões profissionais). Enquanto, em sentido inverso, pela Europa é
uma variante ciclista que foi crescendo sempre, inclusivamente a sua prática
continua ultrapassando oceanos, embora nos dias de hoje o Ciclocross seja
disputado em condições mais amenas e circuitos menos puxados. Diferindo,
note-se, de outras variantes modernas, como as corridas de BTT e outras mais,
disputadas com diferentes géneros de bicicletas.
Todas as épocas têm os seus conceitos e efeitos prediletos, como curiosidades destas demonstram, traduzindo valores como os que assim se procura transmitir, agarrando saberes ancestrais dos que se mostram caducos e novos dos que se podem (re)construir…!
Todas as épocas têm os seus conceitos e efeitos prediletos, como curiosidades destas demonstram, traduzindo valores como os que assim se procura transmitir, agarrando saberes ancestrais dos que se mostram caducos e novos dos que se podem (re)construir…!
Entretanto, o ciclismo está de novo de vento em popa, de
peito feito ao vento no F C Porto, pronto a fazer figura nas estradas. Agora a
cores e com as camisolas azuis e brancas a darem mais colorido ao
grosso da coluna ciclista nacional!
Armando Pinto
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