No dia comemorativo do golpe militar do 25 de ABRIL que em
1974 acabou com a guerra colonial e deu nova forma de vida à nação portuguesa, com
a devida vénia partilha-se uma sugestiva crónica do jornalista António Simões, cronista
que até há alguns anos foi um dos poucos a dar algum interesse às páginas d' A Bola, jornal que se tem vindo a afundar no seu próprio apoio ao regime desportivo nacional, de proteção aos clubes de Lisboa e faciosismo evidente contra o FC Porto.
« O PRESIDENTE DO FC PORTO QUE SAIU DE ELEIÇÕES DIFERENTES DAS
FARSAS DE SALAZAR
Em 1953, fizeram-se no País eleições como já era timbre: mais
ou menos em farsa.
Cartazes da União Nacional diziam que Votar Com Salazar É
Garantir a Paz e o Pão – e apanhando-a remexer caixotes do lixo em busca de
comida para os filhos, fora presa viúva no Porto. A Maria Joaquina da Silva
Teixeira levaram-na ao Tribunal de Polícia por a encontrarem palmilhando ruela
de pé nu:
– Era só um, Sr. Dr. Juiz, andava doente dele…
lamuriou-se e, levantando-se do banco dos réus, mostrou-lhe
duas feridas ainda a lazará-lo. O magistrado, sem desarmar a compostura,
exclamou-lhe (a tocar para o jocoso):
– O que vejo é que está sujo... e se tem o pé doente mais
uma razão para andar calçada... e despachou-lhe a condenação com multa de 16
escudos e 50 centavos e mais 50 escudos pelo «mínimo de imposto de justiça».
O Benfica contratara Otto Glória para seu treinador,
pagando-lhe 12 contos por mês. Baptista Pereira ganhara a Travessia da Mancha -
e no intervalo dos treinos e do trabalho numa fábrica de cimentos a 26 escudos
por dia ainda se aventurava a distribuir, clandestino, o Avante.
Indo Urgel Horta para deputado da União Nacional apontara
para seu sucessor na presidência do FC Porto, Abel Portal. Não o aceitando,
Cesário Bonito lançou-se à corrida como «candidato de oposição», logo se lhe
ouvindo em audácia:
– Quero diálogo sem medo e troca democrática de ideias.
COMO A MULHER DO DITADOR ESPANHOL PÔS OS COMUNISTAS DE
PORTUGAL A DEFENDER PORTISTAS
Através de campanha com «métodos americanizados» (tendo até
cartazes em elétricos), Bonito vencera a eleição e logo o Governador civil do
Porto recebeu em bufaria «alarme» de se estar no clube «perante direção
totalmente reviralhista». E, revelando-se que a Rádio Moscovo se regozijara com
a escolha, alertaram-se as «autoridades» para as «ligações entre o secretário
da direção, Dr. Correia da Silva, e o Dr. Rui Gomes». (Isso descobriu-o o
historiador Diogo Faria – e o Rui Gomes a que se aludia era Ruy Luís Gomes, que
com Virgínia Moura e Lobão Vital, eram rostos vincados da oposição a Salazar.)
Tendo Cesário de Moura Bonito nascido a 1 de agosto de 1909
no Peso da Régua, o pai estivera preso por o apanharem em conspirações contra a
Ditadura – e, aos 16 anos tornou-se jogador do FC Porto. Durante estudos em
Coimbra, jogou pela Académica – e, já cirurgião ilustre, a 20 de maio de 1945
escolheram-no para a presidência do FC Porto. Na segunda presidência (essa que
se abriu, revolucionária, a 6 de fevereiro de 1955) foi ao Brasil buscar
Dorival Yustrich, oferecendo-lhe 150 contos de luvas, 15 por mês – e 100 pelo
título de campeão (quando, por cá, rapariga apanhada de biquíni arriscava multa
de 5 contos).
Patrocinado pela mulher de Franco (o Salazar de Espanha),
fez-se desafio entre seleções de Madrid e Lisboa. Nevoeiro impediu o regresso a
Portugal na data previsto – e a FPF adiou o FC Porto-Sporting para 1 de janeiro
de 1956, comunicando à Emissora Nacional que os portistas o aceitaram (e era
falso). Cesário Bonito despachou telegrama a protestar a decisão - reputando-a
de «arbitrária», «indigna» e «reveladora de um favoritismo». Como o Sporting
tinha a presidente Góis Mota, um dos líderes da Legião (a guarda pretoriana do
regime) lançou também, sibilino, o ataque pelo seu lado político - e A PIDE chegou
a ir às Antas ameaçá-lo.
Na data que então lhe impuseram, o FC Porto bateu o Sporting
por 3-1 - e acabou mesmo campeão (e vencedor da Taça). Porém, antes de lá
chegar, a FPF (presidida por Ângelo Ferrari, então ainda só tenente-coronel,
indicado para o cargo pelo Benfica quando no cargo de presidente da FPF apenas
poderiam estar elementos propostos pelo Benfica, pelo Sporting e pelo
Belenenses, em tácito roulement) determinara a irradiação de Cesário Bonito (e
a suspensão de três anos aos demais diretores). Nenhum abandonou dos cargos, em
AG ouviu-se do presidente Bonito o brado:
– Viemos aqui para buscar o arame farpado para nos mantermos
na barricada contra a prepotência.
Por essa ocasião o Partido Comunista disseminou circular
comunicado clandestino com o título:
«Só à massa associativa do FCP cabe eleger ou destituir os
seus dirigentes» exortando «o povo portuense» a enérgico protesto «contra as
violências do governo salazarista e as arbitrariedades da Federação de Futebol»
(também foi Diogo Faria que o descobriu – e o revelou na revista Dragões).
Correu rumor de que o embaixador americano escrevera,
irónico, para Washington, dizendo que a guerra contra Salazar talvez começasse
por causa de problema com clube de soccer, porque se falara de «levantamento
popular» na cidade se Cesário Bonito levasse mesmo com irradiação. Com
irradiação não levou porque, por entre o escarcéu e a contestação, Leite Pinto,
o ministro da Educação, obrigara a FPF a comutar-lhe a pena – e assim ainda
pôde Cesário Bonito regressar à presidência em 1965…»
António Simões - Co-autor (junto com Homero Serpa e José do Carmo
Francisco, sendo ele mesmo o Editor) da obra “Glória e Vida de 3 Gigantes”, em publicação
do jornal A Bola pelo ano de 1995, de distribuição em fascículos para coleção e
posterior encadernação).
Mais palavras para quê?
Armando Pinto
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