Reconstituição Histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Reconstituição histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Criar é fazer existir, dar vida. Recriar é reconstituir. Como a criação e existência deste blogue tende a que tenha vida perene tudo o que eleva a alma portista. E ao recriar-se memórias procuramos fazer algo para que se não esqueça a história, procurando que seja reavivado o facto de terem existido valores memorávais dignos de registo; tal como se cumpra a finalidade de obtenção glorificadora, que levou a haver pessoas vencedoras, campeões conquistadores de justas vitórias, quais acontecimentos merecedores de evocação histórica.

A. P.

sábado, 25 de abril de 2026

Em dia de memórias do 25 de ABRIL e lembranças dos tempos antecedentes à queda do regime político salazarista-marcelista e desportivo do Estado Novo… Uma crónica sugestiva de António Simões!

25 DE ABRIL DE 2026

No dia comemorativo do golpe militar do 25 de ABRIL que em 1974 acabou com a guerra colonial e deu nova forma de vida à nação portuguesa, com a devida vénia partilha-se uma sugestiva crónica do jornalista António Simões, cronista que até há alguns anos foi um dos poucos a dar algum interesse às páginas d' A Bola, jornal que se tem vindo a afundar no seu próprio apoio ao regime desportivo nacional, de proteção aos clubes de Lisboa e faciosismo evidente contra o FC Porto. 

« O PRESIDENTE DO FC PORTO QUE SAIU DE ELEIÇÕES DIFERENTES DAS FARSAS DE SALAZAR

Em 1953, fizeram-se no País eleições como já era timbre: mais ou menos em farsa.

Cartazes da União Nacional diziam que Votar Com Salazar É Garantir a Paz e o Pão – e apanhando-a remexer caixotes do lixo em busca de comida para os filhos, fora presa viúva no Porto. A Maria Joaquina da Silva Teixeira levaram-na ao Tribunal de Polícia por a encontrarem palmilhando ruela de pé nu:

– Era só um, Sr. Dr. Juiz, andava doente dele…

lamuriou-se e, levantando-se do banco dos réus, mostrou-lhe duas feridas ainda a lazará-lo. O magistrado, sem desarmar a compostura, exclamou-lhe (a tocar para o jocoso):

– O que vejo é que está sujo... e se tem o pé doente mais uma razão para andar calçada... e despachou-lhe a condenação com multa de 16 escudos e 50 centavos e mais 50 escudos pelo «mínimo de imposto de justiça».

O Benfica contratara Otto Glória para seu treinador, pagando-lhe 12 contos por mês. Baptista Pereira ganhara a Travessia da Mancha - e no intervalo dos treinos e do trabalho numa fábrica de cimentos a 26 escudos por dia ainda se aventurava a distribuir, clandestino, o Avante.

Indo Urgel Horta para deputado da União Nacional apontara para seu sucessor na presidência do FC Porto, Abel Portal. Não o aceitando, Cesário Bonito lançou-se à corrida como «candidato de oposição», logo se lhe ouvindo em audácia:

– Quero diálogo sem medo e troca democrática de ideias.

COMO A MULHER DO DITADOR ESPANHOL PÔS OS COMUNISTAS DE PORTUGAL A DEFENDER PORTISTAS

Através de campanha com «métodos americanizados» (tendo até cartazes em elétricos), Bonito vencera a eleição e logo o Governador civil do Porto recebeu em bufaria «alarme» de se estar no clube «perante direção totalmente reviralhista». E, revelando-se que a Rádio Moscovo se regozijara com a escolha, alertaram-se as «autoridades» para as «ligações entre o secretário da direção, Dr. Correia da Silva, e o Dr. Rui Gomes». (Isso descobriu-o o historiador Diogo Faria – e o Rui Gomes a que se aludia era Ruy Luís Gomes, que com Virgínia Moura e Lobão Vital, eram rostos vincados da oposição a Salazar.)

Tendo Cesário de Moura Bonito nascido a 1 de agosto de 1909 no Peso da Régua, o pai estivera preso por o apanharem em conspirações contra a Ditadura – e, aos 16 anos tornou-se jogador do FC Porto. Durante estudos em Coimbra, jogou pela Académica – e, já cirurgião ilustre, a 20 de maio de 1945 escolheram-no para a presidência do FC Porto. Na segunda presidência (essa que se abriu, revolucionária, a 6 de fevereiro de 1955) foi ao Brasil buscar Dorival Yustrich, oferecendo-lhe 150 contos de luvas, 15 por mês – e 100 pelo título de campeão (quando, por cá, rapariga apanhada de biquíni arriscava multa de 5 contos).

Patrocinado pela mulher de Franco (o Salazar de Espanha), fez-se desafio entre seleções de Madrid e Lisboa. Nevoeiro impediu o regresso a Portugal na data previsto – e a FPF adiou o FC Porto-Sporting para 1 de janeiro de 1956, comunicando à Emissora Nacional que os portistas o aceitaram (e era falso). Cesário Bonito despachou telegrama a protestar a decisão - reputando-a de «arbitrária», «indigna» e «reveladora de um favoritismo». Como o Sporting tinha a presidente Góis Mota, um dos líderes da Legião (a guarda pretoriana do regime) lançou também, sibilino, o ataque pelo seu lado político - e A PIDE chegou a ir às Antas ameaçá-lo.

Na data que então lhe impuseram, o FC Porto bateu o Sporting por 3-1 - e acabou mesmo campeão (e vencedor da Taça). Porém, antes de lá chegar, a FPF (presidida por Ângelo Ferrari, então ainda só tenente-coronel, indicado para o cargo pelo Benfica quando no cargo de presidente da FPF apenas poderiam estar elementos propostos pelo Benfica, pelo Sporting e pelo Belenenses, em tácito roulement) determinara a irradiação de Cesário Bonito (e a suspensão de três anos aos demais diretores). Nenhum abandonou dos cargos, em AG ouviu-se do presidente Bonito o brado:

– Viemos aqui para buscar o arame farpado para nos mantermos na barricada contra a prepotência.

Por essa ocasião o Partido Comunista disseminou circular comunicado clandestino com o título:

«Só à massa associativa do FCP cabe eleger ou destituir os seus dirigentes» exortando «o povo portuense» a enérgico protesto «contra as violências do governo salazarista e as arbitrariedades da Federação de Futebol» (também foi Diogo Faria que o descobriu – e o revelou na revista Dragões).

Correu rumor de que o embaixador americano escrevera, irónico, para Washington, dizendo que a guerra contra Salazar talvez começasse por causa de problema com clube de soccer, porque se falara de «levantamento popular» na cidade se Cesário Bonito levasse mesmo com irradiação. Com irradiação não levou porque, por entre o escarcéu e a contestação, Leite Pinto, o ministro da Educação, obrigara a FPF a comutar-lhe a pena – e assim ainda pôde Cesário Bonito regressar à presidência em 1965…»

António Simões - Co-autor (junto com Homero Serpa e José do Carmo Francisco, sendo ele mesmo o Editor) da obra “Glória e Vida de 3 Gigantes”, em publicação do jornal A Bola pelo ano de 1995, de distribuição em fascículos para coleção e posterior encadernação).

Mais palavras para quê?

Armando Pinto

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