terça-feira, 9 de maio de 2017

Súmula Histórica do Hóquei em Campo do FC Porto


Entre as modalidades que ao longo dos tempos incluíram o ecletismo portista esteve também o hóquei em campo, aquele jogo desportivo decorrido ao ar livre, jogado com um setique, mas com regras diferentes do hóquei em patins. Modalidade que, também contrariamente ao patinado, em Portugal é das menos lembradas na comunicação social e extensivamente em atenções gerais. Um desporto (como antigamente se dizia, referente às modalidades) que inicialmente teve forte incremento na parte do Centro e Sul do país, de modo que as equipas das zonas de Lisboa e arredores tiveram supremacia durante os primeiros tempos. Enquanto depois, a partir de certa altura, passou a ter mais importância no Norte do país e menor impacto para Sul, diminuindo depois as tais atenções pelo facto de nessas eras o hóquei em campo ser jogado em recintos de terra e então tivesse poucos golos, jogando-se a pequena bola em longo terreno, ao correr de campos grandes; acrescido do facto de realmente se verem poucos golos, apenas contando remates perto da baliza, segundo as regras de só se “sticar dentro do mini-círculo”. Enquanto atualmente, com a evolução e acréscimo de já ser jogado em recintos relvados e com pisos sintéticos ganha outra visibilidade, numa realidade diferente de quando existiu no FC Porto – o que (como já referimos noutro artigo neste blogue e não será demasiado reforçar) leva a poder-se imaginar como seria interessante o seu retorno ao mundo azul e branco, um dia, podendo então já ser visto no renovado piso do complexo desportivo da Constituição, por exemplo…


Tem pois o hóquei em campo muita história igualmente dentro da história do FC Porto, perante pergaminhos onde ficaram assinalados títulos e personagens, contando com grandes valores e nomes ilustres do passado da modalidade.


Assim sendo, será oportunidade de fazer uma espécie de romagem ao passado, através de vislumbre desta que é uma das modalidades que deixaram de estar incluídas no ecletismo ainda possível na vida Portista – dando-se assim breve exemplo do Hóquei em Campo.

O Hóquei em Campo no FC Porto é uma «modalidade saudade», cuja secção foi extinta em 1989, desaparecendo sua prática assim do universo portista. Uma das modalidades em pausa, entre as diversas que ao longo da história do FC Porto estiveram em foco, mas deixaram de ter sequência, como já aconteceu também com o “rugby”, ténis, tiro, water-polo, xadrez, voleibol, desportos morizados, etc.

Hóquei em Campo - modalidade que no FC Porto foi iniciada experimentalmente em 1926 e depois refundada em 1929, então em definitivo graças aos esforços de José Teixeira Júnior, Carlos Diogo Moreira, do jornalista Rodrigues Teles (mais tarde o primeiro Historiador do FC Porto) e do inglês Brunel Evans.


Logo na época do seu nascimento (1929/30) aconteceu o jogo de batismo. Desenrolou-se no Campo Soares dos Reis, em Vila Nova de Gaia, a 20 de Outubro de 1929, frente ao Vilanovense e saldou-se por um pesado desaire de 6-0. Nada que desmoralizasse, embora a primeira vitória só tenha acontecido meses mais tarde (12 de Janeiro), frente ao Progresso, por 1-0, com Rothes a ter direito a ficar na história por ter marcado esse golo histórico.

Integravam também essa equipa pioneira uns Manuel Ramos, João Ribeiro Júnior, Manuel Ribeiro, Carlos Moreira, Coelho Costa, Esteves de Sousa, João Gonçalves, Joaquim Lagoa, Alberto Temudo e Brunel Evans. Outros nomes se notabilizaram, no decurso dos anos mais distantes, como John Bessa, Herman Katzenstein, Agostinho Pena, o guarda-redes Francisco Costa, José Eurico Terroso e o considerado terrível atirador Álvaro Lopes Melo, autor de 36 golos numa só época.

= Instantâneos fotográficos de fases dum jogo de Hóquei em Campo disputado na Constituição entre o Futebol Clube do Porto e o Boavista, pelos idos da década dos anos cinquenta (créditos do blogue "dragãodoporto"). =

O primeiro troféu conquistado pela modalidade, para o clube, aconteceu em 1931/32. Obteve-o, em Lisboa, frente ao Internacional (campeão lisboeta), ao vencer por 1-0 e chamava-se Taça das Laranjeiras. Contudo, apenas em 1951/52 o FC Porto ganharia o seu primeiro título de Campeão Nacional (foi a primeira equipa do Norte a consegui-lo). Campeões esses que posaram à posteridade, na foto de equipa anexada (em baixo), na qual ficaram fixados (conforme gravura da História do FC Porto de Rodrigues Teles):

Em 1º plano (da esquerda para a direita): Manuel Verde, José Guedes, Fernando Moura, Wenceslau Teixeira, Lino Ferreira e Mário Capitão.
Em pé, (da esq. p/ dir): Belmiro Medeiros (Chefe de Secção), José Luís, Manuel Pires, Júlio Silvano, José Pinto, Eugénio Soares, Artur Pereira, Carlos Pinto e Francisco Gonçalves (Massagista).

Nessa lista dos campeões merecem saliência dois nomes de peso, Venceslau Teixeira, um histórico dirigente do clube que, como jogador era um verdadeiro tormento para árbitros e adversários pelo seu feitio de antes quebrar que torcer, e Mário Capitão, antigo colaborador do clube (tal como Américo Capitão, seu irmão, basquetebolista notável também do nosso clube).

Além desses, muitos mais se distinguiram por esses e outros tempos, estando na memória dos apaniguados ainda exemplos especiais de Lino Ferreira, Victor Lopes, Manuel Amaral, Ferramenta, Carlos Pinto, Miguel Coelho, Daniel Pinto, Carlos Amaral, Carlos Monteiro, Marinho, José Luís, Joaquim Leite, Fernandito, etc. 

Entretanto, Joaquim Leite foi um símbolo para muitos adeptos seguidores da modalidade no FC Porto, ao jeito de referência, a pontos que mais tarde foi oficialmente considerado pela Direção do Clube como uma Lenda do FC Porto, conforme os antigos atletas tidos como mais representativos das diversas modalidades do FC Porto ainda vivos na ocasião, aquando da inauguração do Dragão Caixa, ficando assinalados no exterior, em pleno passeio da fama fronteiro ao mesmo novo pavilhão gimnodesportivo do FC Porto, em 2009.

= Imagem de um jogo no campo da Constituição, em 1969/70 (recorte do jornal O Porto, de arquivo do autor)

Antes disso, o Futebol Clube do Porto foi distinguido oficialmente como  Sócio de Mérito da Federação Portuguesa de Hóquei (em campo) por decisão de 20-10-1973, ao mesmo tempo que outros clubes da velha guarda. Depois, o último título de campeão nacional maior de hóquei em campo pelo FC Porto, por ora, foi obtido em 1977/78, na soma das conquistas de oito campeonatos nacionais de seniores da 1ª Divisão. Havendo de permeio também sido conseguida a Taça de Portugal em 1979/80 e 1980/81, assim como mais tarde ainda nos seniores foi conquistado em 1885/86 o Campeonato Nacional da 2ª Divisão. Enquanto nas camadas jovens o FC Porto foi Campeão Nacional de Juniores por seis vezes, entre títulos de 1961/62 até 1987/88.

= Trofeu da Taça de Portugal 1979/80 =

Modalidade que nunca atingiu grandes parangonas, o hóquei em campo teve maior destaque através dos renhidos confrontos das equipas do FC Porto com o Ramaldense, sendo hoje em dia praticada por um número reduzido de clubes no país, embora pareça também estar em fase de recuperação.

Em vista dos referidos baluartes, regista-se, noutra foto junta, um dos últimos dérbis Porto-Ramaldense...


Nos últimos tempos de atividade do hóquei em campo no FC Porto houve certo declínio e menor investimento, resultando ter até sucedido descida de divisão da equipa sénior, o que levou a algum afastamento do interesse da massa associativa também. Contudo logo que foi possível deu-se o regresso, após a conquista do campeonato da 2ª Divisão e consequente subida – como se recorda por um recorte da revista Dragões, já de 1987.


Mantiveram-se, porém, algumas das anteriores diversas condicionantes e o distanciamento das atenções para a modalidade acentuaram-se. Por vezes já se jogava em campos relvados, mas ainda eram mais usuais os recintos de terra, nesse tempo, escasseando a motivação.

Até que na evolução dos tempos esta modalidade desportiva foi ficando reduzida em número de clubes praticantes e na diminuição de popularidade, além da maior ocupação dos recintos do clube com outras modalidades e escalões do futebol, no tempo do campo da Constituição e dos campos de treinos das Antas, acabando o hóquei em campo por ser extinto no FC Porto ao correr de 1989.

= Respigo da revista Dragões de Novembro de 1988.

Apesar de já não existir no horizonte clubista do mundo azul e branco, esta foi, e é, uma modalidade de grande historial e grandioso património Portista, tendo dado às cores azuis e brancas uma mão cheia de títulos, vários atletas de craveira internacional, como ainda haver tido a possibilidade de competir, quase no final dos anos 70, em Itália, na fase preliminar da Taça dos Campeões Europeus e ostentar oito títulos nacionais.


Armando Pinto
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8 comentários:

  1. Boa-tarde,

    Uma modalidade esquecida do panorama desportivo português ! Hoje, com os campos sintécticos deveria ser impulsionada. Modalidade olímpica, com grande desenvolvimento e impacto em todos os continentes, com número elevado de praticantes de ambos os sexos, que aproveita as instalações de outras modalidades. Com o crescimento dos pisos sintécticos aproveitá-los para, também, ser usado pelo hóquei em campo era dar maior utilização aos mesmos.

    João Mreira

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    1. Exmo. Sr. José Moreira,

      A modalidade ainda é praticada no nosso pais, mas tal como disse, a visibilidade que se lhe dá, é quase nenhuma.

      http://fphoquei.pt/

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  2. O HC é uma modalidade que eu via ainda que raramente, por algumas das razões apontadas, mas que sempre gostei de ver na televisão por altura dos Jogos Olímpicos, com boas equipas e boas jogadas. Gostava que o Porto voltasse a ter para voltarmos a ir ver o Hóquei em campo, porque sem o F C do Porto não é a mesma coisa em tudo.

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  3. Excelente. Está aqui uma crónica de se lhe tirar o chepeu, não há muito disto. E deve merecer que reparem no que diz, de ontem e hoje.

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  4. bons dias, como ex praticante de raguebi na velhinha briosa e um apaixonado do nosso fcp, sempre tive curiosidade em aprofundar a historia dessa modalidade do nosso fcp, no entanto as referncias que encontro na internet, sao tao poucas e vagas que posso dizer que sou um ignorante nesse tema. podera o carissimo, fazer uma publicacao com a historia dessa modalidade no nosso fcp ou fazer um apelo na sua vasta lista de seguidores sobre alguma informacao deste tema? desde ja o meu obrigado e agradecimento pelas lendarias publicacoes que tenho o prazer de ir lendo.
    antonio moreira

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  5. Boa tarde, caro amigo António Moreira. Vou ver se consigo fazer isso, logo que possível, a partir do que está na História do FC Porto de Rodrigues Teles (onde se encontra o que há mais alongado narrando até aos anos 50) e também alguns outros livros, entre o que tenho conseguido angariar. Se bem que quase todas as publicações versam sobretudo sobre futebol e pouco mais. Mesmo assim tentarei, ok, pensando que conseguerei dentro de algum tempo. Entretanto deixo desde já o apelo, também,aos leitores seguidores que possam prestar alguma informação.
    Armando Pinto

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  6. Boa noite, é com grande prazer ter acesso a este espólio menos mediático do FC Porto. Quanto ao Palmarés permita-me uma dúvida...no site da fph, o Porto aparece como vencedor de 6 campeonatos nacionais e 1 taça de Portugal. Dois dos títulos aqui atribuídos são lá associados ao Ramaldense. E uma das taças ao CF Benfica. É pouco compreensível estes lapsos da federação...

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  7. Notável! Na senda de um Rodrigues Telles, Custódio Castro, Luis César e tantos e tantos... anónimos. E já agora referir que outras duas secções (voleibol e atletismo) levaram o mesmo destino. Temos duas histórias a contar: Sobre o hóquei campo o próprio Fernandito confidenciou-nos que em tempos, junto com outras ex-figuras da modalidade, propuseram o seu ressurgimento ao qual apresentaram um projeto credível. Sobre o voleibol numa cordial conversa que tivemos com o senhor Manuel Tavares (do departamento de informação) tipo desabafo (lamentando a sua inexistência) este deixou-nos perplexos dizendo: “com quem iriamos jogar? Só com o benfica”? Com a Aurora Cunha e Fernanda Ribeiro chegamos a lamentar (nos “encontros” solidários) que tendo elas por vezes um palco (imprensa) aproveitando manifestando lamentos sobre a extinção da sua modalidade, o atletismo…
    Parabéns. Isto sim, é memória.

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