Reconstituição Histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Reconstituição histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Criar é fazer existir, dar vida. Recriar é reconstituir. Como a criação e existência deste blogue tende a que tenha vida perene tudo o que eleva a alma portista. E ao recriar-se memórias procuramos fazer algo para que se não esqueça a história, procurando que seja reavivado o facto de terem existido valores memorávais dignos de registo; tal como se cumpra a finalidade de obtenção glorificadora, que levou a haver pessoas vencedoras, campeões conquistadores de justas vitórias, quais acontecimentos merecedores de evocação histórica.

A. P.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Antigo ciclista Amândio Cardoso: um senhor quase centenário!

Um destes dias, numa interessante peça jornalística assinada pelo jornalista Pedro Cadima, o jornal O Jogo deu à lembrança pública uma entrevista evocativa do antigo ciclista Amândio Cardoso, um campeão do ciclismo do FC Porto que em 1951 venceu o Porto-Lisboa e em 1952 foi Campeão Nacional de Ciclocross. Sendo que o mesmo histórico ciclista, em seu tempo exímio trepador e rolador em terrenos difíceis, corre depressa agora para dentro de poucos meses completar a bonita idade de 100 anos de vida, vem a propósito registar esse facto com uma memorização de sua carreira, através de partilha da mesma entrevista do jornal; para de seguida se relembrar uma memória de seu título nacional, conforme já foi há tempos publicado neste blogue; e por fim regista-se alguns de seus títulos conquistados.

Assim sendo, eis o trabalho jornalístico, desde o título até ao corpo do mesmo texto:

O relojoeiro que trepou pelo FC Porto e vai para o centenário

(O JOGO - Pedro Cadima - 25 março 2026)

- «Amândio Cardoso ainda abre o livro da vida com quase 100 anos. Não descola do lugar de trabalho e mantém bem vivas as recordações das suas conquistas nos anos 40 e 50.»

(imagem O Jogo - Amândio Cardoso Créditos:D.R.)

« Amândio Cardoso caminha para o centenário, maratonista da vida, trepador noutros tempos, inesgotável motor das bicicletas, sendo campeão nacional de Ciclocross em 1952, participando em quatro voltas a Portugal, de 1949 a 1952. Amândio vive a contar histórias, acertando ideias e horas, inseparável dos relógios, pontual na sua lei laboral, tendo assinatura de três ourivesarias no grande Porto. É um resistente, homem de aço, como era a correr nas estradas e nos terrenos mais agrestes, sendo um embaixador competitivo do FC Porto por anos de filiação aos dragões no ciclismo.

Em São Mamede de Infesta, contam-se os dias para 28 de junho, quando abraçar os 100 anos com um legado invejável, não deixando de ser visto pelos clientes do seu espaço, consertando algo, acenando ao longe, prestável para qualquer tipo de conversa. Aos oito, via o seu FC Porto ser campeão pela primeira vez, estávamos na época 1934/35. Hoje orgulha-se de ter sido testemunha viva de todo o percurso triunfante azul e branco, com um total de 30 títulos de campeão nacional no futebol e um herói que supera Pavão, Cubillas, Madjer e Futre. O primeiro encanto prevalece. "Sempre fui portista de ver jogos a partir dos meus oito anos, depois fico portista mais a sério aos 19, quando passo a ser atleta de ciclismo do clube. O Pinga é o herói desse tempo, um jogador impressionante que também morava no Carvalhido. Era um espetáculo, muito forte, nem que lhe batessem, ele passava por todos", atira em conversa com O JOGO, aceitando mergulhar às profundezas da história, de um craque que já habita em poucas memórias.

O atleta também se forjava, duro no pelotão. "Andava de bicicleta, mas também fazia corridas a pé. Depois fiz provas como principiante e fui ganhando, inclusive uma na Avenida dos Combatentes. O FC Porto interessou-se por mim, já tinha o Moreira de Sá. Tentaram também levar-me para o Boavista, mas quis o FC Porto", lembra, dignificando a partir daí esse manto especial pelas estradas do país, sem nada temer, trepando desejos. "Corri vários anos e só defendi o FC Porto. Ganhei prémios de montanha, subia bem e ganhei uma etapa de Bragança à Covilhã, dentro da Serra da Estrela. Treinei muito para uma chegada numa viela a pique. Ganhei a uma série de espanhóis", conta Amândio Cardoso, não deixando fugir um título nacional de Ciclocross. "Participava em algumas provas aqui no Porto, em tudo o que eram terrenos duros. Andava com a bicicleta às costas", rebobina, não largando essa cassete de feitos inestimáveis. Um prazeroso baú construído com muita resiliência e ferocidade e um desafio constante aos limites. "Trabalhava e os outros não. Os meus colegas e adversários apenas corriam, eu sustentava a casa, ao mínimo contratempo, não treinava. Eles treinavam sempre que queriam, eu tratava dos relógios", observa.

Viu a glória em Gelsenkirchen e Sevilha

Amândio Cardoso abre o livro na mesa, de pé sem ajuda, inquieto na falta de mais uma fotografia, impondo destreza nos cantos da loja e oficina de trabalho. Cartões acumulam-se com significado apropriado, dentro de uma melodia de afetos por uma camisola que lhe fez a vida. "Vi os maiores de sempre como Cubillas, Pavão, Madjer e Futre, mas continuo a ficar com Pinga. Não esqueço Viena, o que vivi ali, a festa que foi. Não esqueço os meus encontros com o Zé do Boné [Pedroto] e o amigo Pinto da Costa. Mais do que meu presidente, foi sempre um amigo, aparecia muito no ciclismo. O FC Porto ganhava muito e ele era presente", sublinha o afamado relojoeiro, ciente dos belos brindes da fama para a prosperidade alcançada.

"Como atletas do FC Porto, éramos reconhecidos e eu, por vezes, queria passar despercebido. Como corria e trabalhava, essa situação fez muito bem ao negócio, ganhei clientes", relata Amândio, munido de outras efemérides preciosas. "Carreguei a maior das bandeiras na inauguração das Antas em 1952 e estive em 1948 no Campo do Lima, na vitória de 3-2 sobre o Arsenal, que rendeu a grande Taça em prata, que está no nosso museu. Também vi a equipa argentina do San Lorenzo na sua digressão espetacular. Ganhou aqui por muitos [4-9]. Eram formidáveis, faziam tudo bem e ainda ganharam por maior margem a Portugal", conta o antigo ciclista, que ostentava créditos de campeão nacional quando o recinto das Antas se engrandeceu na Invicta.

Não sobram dúvidas de uma vida cheia. "Também pude estar nas finais europeias do FC Porto, de Viena, Gelsenkirchen e Sevilha. Só não fui à última de André Villas-Boas", junta Amândio Cardoso, sócio 129, seguindo como indefetível portista às portas do centenário: "Sempre fui doido pelo clube. Mas hoje preservo-me e não vejo tanto os jogos. Acredito muito que vai voltar a ser campeão". »

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Entretanto, relembra-se a evocativa narração do título de Campeão de Ciclocross, aqui neste blogue “Memória Portista”, em “Efeméride: Vitória de Amândio Cardoso no Campeonato de Ciclocross em 1952” - artigo publicado a 13 de janeiro de 2020:


A 13 de janeiro de 1952 disputou-se o “Campeonato de Ciclismo-Pedestre” da Associação de Ciclismo do Norte de Portugal. Tratando-se da prova nortenha das corridas de ciclismo de inverno, o chamado Ciclocross. Variante velocipédica do desporto das bicicletas de corrida que durante muito tempo, ao longo de muitas épocas de antanho, teve primazia no início de cada época, disputado ao jeito de preparação enquanto não entravam no calendário as corridas de estrada.

Ora, segundo o blogue “Asociación Ibérica de Historiadores y Escritores de Ciclismo”, através da página de facebook “Memorabilia do Ciclismo Português”, é recordado nesta data ter havido em 1952 tal prova disputada no Norte de Portugal. Sendo depois disputada uma faze final com os ciclistas do sul.

Então em Independentes (ao fim de circuito de 5 voltas) venceu Amândio Cardoso, do F. C. Porto, que concluiu esse trajeto de obstáculos, tipo todo o terreno, em 29 minutos e 50 segundos.

Em Amadores Seniores (4 voltas) triunfou José Couto, também do F. C. Porto, em 24 m 10 s.

Essa variante do ciclismo de competição não era, porém, do agrado de muitos ciclistas e mesmo de dirigentes, tendo ainda perdurado no Porto até aos anos setentas, pelo menos, nas categorias de Profissionais e Amadores, até que passou a ser mais concorrida de camadas jovens e ciclistas em princípios de carreira adulta. 

= Foto de 1952, alinhando à partida duma prova, os portistas da classe de Independentes (da esquerda para a direita) Onofre Tavares, Alberto Moreira e Amândio Cardoso.

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E, por fim, numa listagem de vitórias, a sua 
Folha curricular:

Amândio Cardoso, entre diversos títulos nas classificações coletivas (“por equipas”), foi Campeão no Campeonato Nacional de Contra-relógio por equipas em Independentes, no ano de 1950 (FC Porto Campeão com Aniceto Bruno, Amândio Cardoso e Joaquim Costa); e fez parte em 1950 e 1951 da equipa do FC Porto que triunfou coletivamente nos 1.º e 2.º Circuito de Felgueiras, bem como nas vitórias por equipas na Volta a Portugal de 1949, 1950 e 1952. Ao passo que individualmente foi o vencedor do Porto-Lisboa em 1951, entrando assim na lista dos grandes vencedores dessa clássica. Até que em 1952 foi Campeão do Norte e Campeão Nacional de Ciclocross.

Armando Pinto

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