Na sequência do artigo sobre o antigo ciclista Luciano Moreira de Sá, na celebração de seus 96 anos de vida, vem a calhar bem partilhar um feixe de memórias conhecidas por um senhor ilustre como é o Dr. Silva Peneda, que foi Ministro Português. Alguém que desportiva e familiarmente é conhecedor do fenómeno do ciclismo, como genro do grande ciclista Fernando Moreira de Sá, vencedor da Volta a Portugal de 1952 e Campeão Nacional, assim como sobrinho por sua mulher do outro grande ciclista da família, que foi Luciano Moreira de Sá, bi-campeão da clássica Porto-Lisboa e também Campeão Nacional. Em ambos os casos ciclistas do Futebol Clube do Porto, nos tempos áureos do ciclismo. Histórias essas muito interessantes, que merecem ser conhecidas e por isso mesmo aqui contadas, com muita honra. Sentindo-se o autor deste blogue muito honrado por as poder partilhar neste espaço de Memória Portista, com a devida aprovação de quem de direito. Sendo assim um grande gosto pessoal, como apreciador da história portista e das memórias do ciclismo azul e branco, além de grande admirador dos dois irmãos Moreiras de Sá. E extensivamente à família do vencedor da Volta de 1952 Fernando Moreira de Sá, da filha D. Fernanda Moreira de Sá Peneda, e seu marido Dr. José Silva Peneda, mais a filha destes e neta do ciclista campeão, Dr.ª Marta Moreira de Sá Peneda.
Eis então esse belo naco de prosa memoranda, como pedaço grande apresentado em boas fatias de memórias dignas de ficarem guardadas pelo seu valor histórico e sentimental.
«HISTÓRIAS DE FERNANDO E LUCIANO MOREIRA DE SÁ
O meu nome é José Silva Peneda, casado com uma das filhas de Fernando Moreira de Sá, de nome Maria Fernanda e sobrinha do Luciano Moreira de Sá.
Ouvi muitas histórias de ciclismo dos tempos deles e convivi com algumas glórias da época, tais como Onofre Tavares, Alves Barbosa, Sousa Santos, Sousa Cardoso, Carlos Carvalho, Joaquim Sá, Emídio Pinto, Amândio Cardoso e Alberto Cerqueda, entre outros, e ouvi cenas relatadas por eles e com muita piada.
Vou contar algumas:
O Luciano venceu dois Porto-Lisboa e, numa das vitórias, o pelotão circulava compacto até à chegada da temível Calçada da Carriche que antecedia a chegada ao Estádio José Alvalade. Foi então que Luciano pegou no bidão da água, molhou o cabelo, e começou a pentear-se, dizendo bem alto, para todos ouvirem: “É para a fotografia na meta". E não é que venceu a prova! O Luciano para além de ser um grande atleta sempre teve, e ainda tem, um sentido de humor muito apurado.
= Luciano Moreira de Sá
Outra história envolve um ciclista do Benfica que andava de relações cortadas com Fernando Moreira de Sá. Foi no ano em que ele ganhou a Volta. Numa das etapas teve um furo, o carro de apoio vinha longe e o benfiquista tirou a roda da sua bicicleta e deu-a a Moreia de Sá. Na altura, esta atitude era penalizada e foi, embora o F.C. do Porto tivesse assumido tal encargo. Mas como o benfiquista não era parvo e como a notícia correu, numa chegada ao Estádio do Lima ele, de propósito, atrasou-se em relação ao pelotão e acabou por ter, segundo disse, a maior ovação da sua carreira. Chamava-se Império dos Santos, pai do treinador do Boavista José Santos. Nós, portistas, sabemos ser gratos.
A terceira história passou-se em pleno Alentejo, na etapa Setúbal-Loulé em estradas de macadame e com temperaturas a rondar os 40º. Em qualquer equipa havia os chamados aguadeiros, que enchiam os bidões nas fontes na berma das estradas para distribuir pelos colegas de equipa. Na equipa do Porto um deles era um jovem, também maiato, de nome Joaquim Cerqueda, que só teve coragem de contar esta cena dezenas de anos depois, o que revela de respeito pelo então chefe de equipa, Fernando Moreira de Sá. A fonte em causa só vertia umas pinguinhas e o nosso aguadeiro pensou que nunca mais encheria os bidões e provavelmente não chegaria ao pelotão. Estavam umas cabeças de gado a beber do tanque para onde a fonte brotava escassas gotas de água. Então, o nosso aguadeiro resolveu o problema: deu um berro ao gado, que se afastou. Mergulhou os bidões na água e, num ápice, estava de regresso ao pelotão. Fernando Moreira de Sá, muito sabido, achou estranha tanta rapidez e perguntou-lhe: “Já estás aqui? Encheste tudo”? Ao que o Alberto respondeu: "estou a andar muito bem".
A quarta história passa-se na serra da Arrábida, numa etapa que ligava Setúbal a Lisboa incluída na Volta a Portugal, que Fernando Moreira venceu, em 1952. Os restaurantes de Setúbal para homenagear Fernando Moreira de Sá confecionaram bacalhau, não à Gomes de Sá, mas sim à Moreira de Sá. Na subida para o alto da Arrábida o nosso Fernando começou a sentir- se mal, a vomitar e chegou a pôr a hipótese de desistir. A acompanhá-lo ficou o Amândio Cardoso que, qual psicólogo procurava estimular por todas as formas o doente, dizendo para respirar fundo, não forçar a pedalada, andamentos lentos na subida e teve a frase certa para dizer a um campeão. E atirou-lhe: “Fernando, se chegares lá acima na Serra tens todas as qualidades para apanhar o pelotão, antes da chegada à meta, em Lisboa”. E assim foi. Fernando Moreira de Sá descia muito bem e o contrarrelógio era uma das suas especialidades, a ponto de vários jornalistas espanhóis e portugueses o considerarem o maior contrarrelogista da Península Ibérica.
= Fernando Moreira de Sá
A quinta história foi-me contada por Onofre Tavares, um dos maiores sprinters de todos os tempos. Numa etapa da Volta a Portugal, Onofre sentiu-se mal e foi ter com Fernando Moreira de Sá dizendo que ia abandonar. Fernando, com ar sério, lembrou-lhe que, nesse dia, era o primeiro aniversário do falecimento do pai do Onofre que era um grande adepto do filho. E disse-lhe: “Lembra-te que o teu pai está na meta à espera que ganhes a etapa”. O Onofre contou-me que sentiu os cabelos dos braços a eriçarem-se, foi para a frente do pelotão, partiu tudo e ganhou a etapa. A lição aqui fica. A palavra dita no momento certo remove montanhas.
A sexta história envolve o Presidente Pinto da Costa. Quando Moreira de Sá faleceu a nossa família não esquece a permanência contínua no velório do nosso Presidente, na Igreja da Maia. A certa altura, abeira-se de mim dizendo que gostava de ter no Museu do Futebol Clube do Porto qualquer coisa que perpetuasse a memória de Fernando Moreira de Sá. Lembrei-me logo da bicicleta com que ele tinha ganho a Volta de 1952, que me ofereceu para dar umas pedaladas na sua companhia e que tinha gravado no quadro o seu nome. Consultei a minha mulher que de pronto anuiu à ideia. Pedi ao Joaquim Leite, também antigo ciclista do F.C. do Porto, que reparasse a bicicleta para ficar exatamente como era em 1952. Com alguma dificuldade ele fez um trabalho excelente e a bicicleta lá está num local de destaque do nosso Museu. Depois, Pinto da Costa disse-me que quando o F.C do Porto tinha equipa de ciclismo ela fazia questão de ir ao local onde estava a dita bicicleta e fazia uma preleção recordando Moreira de Sá que nunca envergou outra camisola que não fosse a do F. C. do Porto.
A sétima e última história
passou-se no final de uma prova que ligava Madrid ao Porto, em que participavam
os melhores dez ciclistas de Portugal e de Espanha. Na última etapa, com
chegada ao Porto, Moreira de Sá estava, na classificação geral, em segundo
lugar, a escassos segundos do primeiro. Alguns adeptos do Porto tiveram a ideia
de, na subida da Rua João IV, derrubarem o espanhol. Isso chegou aos ouvidos de
Moreira de Sá e, de imediato, fez saber que se isso acontecesse ele ficaria
apeado ao lado do ciclista espanhol. Chama-se a isto grandeza de carácter.
Histórias interessantes que merecem mesmo ser conhecidas e como tal com muito gosto aqui ficam partilhadas.
Armando Pinto




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