Com grande apreço, dá-se notícia de um relato literário de teor memorial-futebolístico referente à jornada vivida em 1937 por um literato natural de Lousada, como assistente que foi entre a multidão presente ao Porto-Sporting disputado em Coimbra no ano de 1937, na final do Campeonato de Portugal de 1936/37. Cujo resultado de 3-2 então verificado, a favor da equipa azul e branca, atribuiu ao FC Porto o título de Campeão de Portugal nesse ano.
O autor da crónica era pessoa da cultura da vila e do concelho de Lousada, e chegou a trabalhar como escriturário no concelho de Felgueiras, na então povoação da Longra, hoje vila, na fábrica do Largo da Longra, a Móveis de Ferro-MIT de Américo Martins (antecessora da Metalúrgica da Longra), inclusive com intervenção local como ensaiador responsável do Grupo de Teatro José Xavier, da Associação Pró-Longra, pelos anos 30 do passado século XX. Havendo, por outro lado mais recente, ainda também ligação pessoal aqui do autor destas linhas, por ter estudado algum tempo em Lousada, no histórico Externato Eça de Queirós e em Lousada ter tido um dos meus melhores amigos, o Zé Vieira, mais tarde advogado e personagem histórico da cidadania lousadense, assim como mais alguns outros, conforme lembro o Jorge Magalhães, o Teles, o Zé Alberto, etc. e profissionalmente também o médico Dr. Afonso Magalhães. Tal como muitos anos depois também acabei o percurso profissional por lá, quando o agrupamento dos centros de saúde de Sousa e Tâmega teve sede em Lousada. Com tantas afinidades, juntando ao sentimento portista, a narrativa memoranda vem a propósito. Tendo essa crónica sido entretanto publicada no Jornal de Lousada, em 1953, e agora (03-3-2026) dada a público no sítio informático do atual jornal O Louzadense. De cuja página, com a devida vénia, aqui se partilha:
Crónica de António Gorgel sobre um jogo entre estes dois clubes
portugueses em Coimbra, ocorrida em 1937. Um grupo de Lousadenses assistiu a
esse jogo e disso deu conta o célebre cronista do antigo Jornal de Lousada:
Um jogo da bola na Coimbra dos doutores
por António Augusto de Castro Gorgel (1902-1979)
( Crónica do Jornal de Lousada de 12-03-1953, sobre factos
de 04-07-1937)
«Com umas dúzias de fixes Lousadenses, éramos dos ferrenhos
do grupo azul e branco. Jogava-se uma final do campeonato em Coimbra, entre o
Sporting e o nosso Porto. Eu, o Dr. Magalhães [notário do Cartório de Lousada,
Dr António José de Sousa Magalhães], seu filho Afonso [à época dos factos
jogador do Lousada Foot-Ball Club], Heitor Cunha e Manuel Mota, para lá
abalamos, no carro do Ambrósio [de Oliveira, taxista.].
Fervilhava em nós o regionalismo. Viagem óptima e, por horas do almoço estávamos na Lusa Atenas [Coimbra]. Compramos os bilhetes e toca a arranjar restaurante para almoçar. Começou então o nosso calvário. Multidão imensa, de Lisboa e do Porto, ida em comboios especiais, carros e camionetas, deambulando pelas ruas da princesa do Mondego, antes do desafio a realizar no velho Campo do Arnado. Lá encontramos vaga num restaurante. Sala cheia. Sentamo-nos a uma mesa, junto da janela e ao lado de outra onde estava um casal. Cansados de esperar que fossemos servidos, vimos que o tal casal da mesa ao lado saiu deixando uma travessa quase cheia de arroz de frango. Num abrir e fechar d’olhos transferimos o pitéu para a nossa mesa. Lançamos os ossos pela janela fora para não haver vestígios. Mal nos tínhamos servido do cozinhado entretanto pedido, quando inesperadamente entram pela sala meia dúzia de indivíduos, em mangas de camisa, chefiados por um brutamontes de bigodes grandes, pêlo retorcido nos queixos, de guardanapo ao peito e talheres nas mãos. Este diz para o ar: “Quem foi o malandro que nos estragou a refeição, deitando-nos em cima dos pratos ossos de frango e restos de comida?” Era gente que comia pelo lado de baixo da nossa janela. Gera-se grande burburinho e no meio da confusão mudamo-nos para a outra mesa, mais afastada da janela… Lá passamos despercebidos.
Fomos para o campo. Ganhou o Porto e, por consequência, o campeonato de Portugal. Nas ruas era um delírio. Desde o “Santa Cruz” até uma tasca onde encontramos vinho verde, fomos nós e os outros, ao colo dos entusiastas, numa multidão louca e delirante, aos vivas ao Porto e abaixo o Sporting. Em dado momento, o nosso carro ultrapassa um dos muitos grupos no qual topamos com o tal brutamontes dos bigodes, o qual, colérico, dava vivas ao Sporting e morras ao Porto. Então, ágil, o Heitor abre a porta e, de pé no estribo do carro, assenta dois valentes “cachaços” no peludo alfacinha, dizendo: “Já que não almoças-te, come agora, seu bigodeira d’arame!” O Ambrósio acelerou, raspando pela estrada fora.
Jantou-se no Porto e, de madrugada, de regresso a Lousada, parou de repente o carro, junto ao Luís Cantoneiro. Acabou a gasolina. A pé, sonolentos e cansados, dizia sarcasticamente o Mota: “Castigo de Deus pelos ossos e pelos ‘cachaços’ no homem!”.»
«Esta imagem, da equipa do FC do Porto desse jogo, é de uma fotografia original que nos enviou Armando Pinto, da Vila da Longra, leitor do jornal O Louzadense .»




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