Reconstituição Histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Reconstituição histórico-documental da Vida do FC Porto em parcelas memoráveis

Criar é fazer existir, dar vida. Recriar é reconstituir. Como a criação e existência deste blogue tende a que tenha vida perene tudo o que eleva a alma portista. E ao recriar-se memórias procuramos fazer algo para que se não esqueça a história, procurando que seja reavivado o facto de terem existido valores memorávais dignos de registo; tal como se cumpra a finalidade de obtenção glorificadora, que levou a haver pessoas vencedoras, campeões conquistadores de justas vitórias, quais acontecimentos merecedores de evocação histórica.

A. P.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

António Garrido (1932 - 2014)


António Garrido: Adepto tardio do FC Porto, depois de ter sido Sportinguista enquanto árbitro ativo…

Faleceu  António Garrido. Antigo árbitro internacional, que se finou aos 81 anos, vítima de doença prolongada. Um árbitro que prejudicou o F C Porto mas acabou por reconhecer que o F C Porto era o melhor.

António Garrido, falecido esta quarta-feira, dia 10 de Setembro, foi e é considerado um dos maiores árbitros nacionais de sempre, tendo sido o primeiro português a dirigir uma final da Taça dos Campeões Europeus (1980). Para além desse jogo decisivo da edição de 1980 da mais importante competição europeia de clubes, Garrido marcou presença também em dois Mundiais de futebol (1978 e 1982) e um Europeu (1980).

Costuma-se dizer que quando alguém morre só se deve dizer bem, mas pensamos que se deve dizer a verdade. Ainda mais quando pode demonstrar o carácter do finado. Tal como nos lembramos do senhor Garrido, que quando árbitro nos deixou fracas recordações, mas depois demonstrou ser pessoa de bem.

Assim, recordamo-nos de ele ter tido influência, pelo menos, num campeonato que o Sporting conquistou em 1980, ao não ter assinalado um penalty quando se desenrolava ainda sem golos o decisivo F C Porto-Sporting dessa época de 1979/1980, com o campeonato a caminhar para o fim. Embora, depois disso e já com o Sporting adiantado no marcador, acabasse mais tarde por assinalar um outro penalty, dessa vez para o F C Porto, finalmente, que restabeleceu a igualdade; porém, desse modo, mantendo o Sporting na frente da classificação, em posição que se revelou determinante na atribuição do primeiro lugar do campeonato. Sendo ele Sportinguista, como aliás declarara na sua ficha oficial (como aliás o jornal Correio da Manhã refere em artigo publicado hoje em sua página informática), mas mesmo assim era nomeado para dirigir jogos do Sporting.

= António Garrido, numa imagem constante duma coleção de gravuras, do site "Cromos da minha infância" =

Mas vamos por partes. E, com olhos nalgumas passagens hoje transcritas na comunicação social, é de acrescentar:

Muito depois de ter abandonado os meios futebolísticos, em Maio recente, em entrevista à agência Lusa, António Garrido recordava que as presenças na fase final dos Mundiais foram o ponto alto da sua carreira. Na sua estreia em Mundiais, em 1978, na Argentina, António Garrido arbitrou o primeiro jogo da seleção anfitriã, com a Hungria (vitória dos sul-americanos por 2-1).

No Europeu de 1980, em Itália, arbitrou o decisivo Itália-Bélgica, que ao terminar empatado colocou os belgas na final da competição, que acabariam por perder para a então República Federal Alemã.

Quatro anos depois, em 1982, nova ida ao Mundial, desta feita em Espanha. No Campeonato do Mundo do país vizinho, Garrido esteve perto de apitar a final.

"Durante o campeonato, tudo indicava que seria o árbitro da final desde que o Brasil fosse à final", lembrou António Garrido à Lusa. Mas a Itália eliminou o Brasil (3-2, com um 'hat-trick' de Paolo Rossi) e Garrido viu, assim, esfumar-se a possibilidade de chegar ao topo da carreira.

"Acabei por me limitar a fazer o jogo do terceiro e quarto lugares. Estava em grande forma, era considerado um dos melhores, senão o melhor, árbitro mundial nessa altura. Acabei por ter azar e não ir à final", lamentou.

Nos jogos das competições europeias de clubes, o ponto alto de António Garrido foi a final da Taça dos Campeões Europeus de 1980, na vitória dos ingleses do Nottingham Forest sobre os alemães do Hamburgo (1-0, no Santiago Bernabeu, em Madrid).

Já antes tinha arbitrado uma Supertaça Europeia em 1977, entre o Liverpool e o Hamburgo. E acabaria por cumprir o sonho de dirigir uma partida no mítico estádio Wembley, na final do campeonato britânico entre a Inglaterra e a Escócia.

A nível nacional, António Garrido assumiu no início de carreira - perante os responsáveis da arbitragem - que era do Sporting, mas acabou por se tornar um adepto do FC Porto.

"Uma pessoa acaba por se sentir bem onde nos tratam bem. Não é que o Sporting ou o Benfica não me tratassem bem. Acompanhei os árbitros nos jogos desses clubes [...], mas comecei a sentir-me acarinhado, principalmente quando terminei a carreira, pelo FC Porto. Acabei por ganhar uma simpatia pelo FC Porto e posso dizer que hoje sou portista", assumiu em 2012, em entrevista ao Jornal de Leiria.

Contabilista de profissão, António Garrido começou como fiscal de linha num Peniche-Caldas de juvenis em 1964 e estreou-se como árbitro no mesmo ano, dirigindo a partida entre 'Os Nazarenos' e o Mirense. Chegou ao topo da carreira nacional e em 1973 ganhou as divisas de internacional.

Medalha de Mérito Desportivo

Foi reconhecido pelo Governo com a medalha de Mérito Desportivo e mais tarde agraciado pelo Presidente da República com o grau da Ordem do Infante D. Henrique.

Depois de ter terminado a carreira como árbitro, foi durante 20 anos instrutor de árbitros da FIFA, observador da UEFA e comissário de árbitros em campeonatos do Mundo.

António Garrido foi membro do Conselho de Arbitragem a nível nacional durante quatro anos. Em 2005 foi ouvido pela Polícia Judiciária como testemunha no processo Apito Dourado, depois de ter sido escutado em conversas com arguidos como Valentim Loureiro e Pinto de Sousa. (Relembrando-se que o caso apito dourado foi uma inventona que na opinião pública verdadeira, afinal, ficou associado ao orelhas e à jorrnalista homada, através dum livro encomendado... tendo do processo saídos ilibados os que foram pronunciados oficialmente. Enquanto não chegou à barra dos tribunais o chamado apito encarnado, ao passo que na comunicação social foram branqueadas escutas telefónicas em que se ouvia a voz do presidente encarnado a dizer que podia ser nomeado o João... )

Garrido nasceu a 3 de Dezembro de 1932 na freguesia de Vieira de Leiria. Alvo de homenagem pública no local do velório, ficou em câmara ardente na igreja da Marinha Grande e sepultado no cemitério da mesma localidade.

Armando Pinto

domingo, 12 de janeiro de 2014

Calabotagens...


Dizia Hernâni, o grande futebolista portista e nacional da década de cinquenta, que o F C Porto para conquistar títulos tinha que ser muito superior aos outros, não bastando ser igual ou melhor, tal o que acontecia nas ajudas aos adversários diretos. Só com uma grande superioridade, que desse para superar tudo, é que o F C Porto conseguia vitórias. Afirmando que, por isso, um campeonato ganho pelo Porto valia por dez dos outros. E isso viu-se agora, mais uma vez, no jogo da propaganda vermelha, a reboque da programação de Eusébio…

Obviamente que o F C Porto, desta vez, não exerceu a tal superioridade evidente, e não tendo conseguido isso, ou seja que nem as ajudas de arbitragem tivessem demasiada influência, acabou por ser derrotado, enquanto diversos erros próprios ajudaram à festa programada.

Por outro lado, no fim do jogo, dizia publicamente o comentador televisivo José Fernando Rio, que muito admiramos pela sua análise correta que faz no Porto Canal: «O FC Porto foi impedido de ganhar este jogo. Falou mais alto a homenagem ao Eusébio. Deixo de lado as decisões menores e a dualidade gritante de critério técnico e disciplinar. Não posso é deixar passar em claro as duas grandes penalidades que ficaram por marcar sobre Quaresma e Danilo, ficando o FC Porto a jogar injustamente com menos um jogador, e o claro benefício ao infrator quando Jackson Martínez seguia isolado para a baliza. Uma vergonha para o futebol português!»

E dizemos nós: O F C Porto está muito aquém do costume, mas o Benfica foi ajudado descaradamente. Só quem não quer ver pode não querer reconhecer isso... Vergonha do sistema... e o árbitro Soares Dias (embora com culpas naturais também de seus protetores) - para o Panteão nacional-lisbonense já...! Não que lhe desejemos a morte, obviamente, embora lhe devesse doer a boca (onde andou com o apito) enquanto estes pontos não cicatrizarem... Mas sim, metaforicamente, colocando lá  um Cenotáfio (tumba vazia) como memorial.

No tempo de Hernâni, a era do antigo regime ficou conhecida historicamente pelo paradigma do caso-Calabote, num exemplo dos muitos desse tempo. Agora, como tudo está a regredir, como se sabe e sente, volta a haver Calabotagens…

Hernâni, a quem Eusébio tratava por “senhor Hernâni”, tal a grandeza que achava nele (como o próprio afirmou em seu tempo), dizia que um Campeonato do F C Porto valia por coisa de dez dos outros… E, como ultimamente o FCP tem vencido mais, com a tal superioridade evidente, há que analisar as causas do menor rendimento acontecido na tarde deste domingo cinzento. Para que, como aqueles tais outros festejam agora em Janeiro, no inverno, já nós, Portistas, possamos festejar mais para o tempo primaveril, em Maio…!

Com esse semblante, recordemos o nosso grande Hernâni, a quem as musas da bola obedeciam em seu tempo, sem contudo ter chegado a ser lembrado para celebrações federativas ou governamentais, entronizado entre heróis… como merecia, mas sem excessos, entenda-se.


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Armando Pinto

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Tempos passados… de idealismo azul e branco.


Ai, como eu queria?!

…Como desejava tanto… o que mais queria. Pois era, ao ouvir o desfecho do "Marcelino Pão e Vinho", um filme antigo que minha avó me narrava em forma de conto, era eu ainda criança de tenra idade, como ficava a imaginar que me havia de calhar bem se pudesse escolher assim um desejo…


Dou então comigo, agora, a rever ténues imagens que ainda afloram à retina da memória. Porque há sempre ocasião em que se nos deparam memorietas das que ficaram mais impregnadas no disco rígido de nosso cérebro.

= Um F C Porto-Benfica, de inícios dos anos sessentas… =

Volte-se atrás, numa máquina do tempo, a tempos que há muito já lá vão… como que fazendo a ligação aos de agora. Não sendo novidade nenhuma aquele penalty inventado, há poucas jornadas atrás, ainda, no Estoril, sendo como foi, fora da área… Apenas que ultimamente o descaramento já não era tanto como antes. Mas ainda estão de fresca memória alguns outros desaforos, como aquela tristemente célebre arbitragem do Paixão que, num dos anos da década de noventa, nos roubou um campeonato em Campo Maior, metendo uma série de agressões que passaram impunes e vários agarrões dentro da área sobre o Jardel… tal como uns anos antes, em 1978/79 Marques Pires, da Associação de Setúbal, num Sporting-F C Porto, marcou a 15 minutos do final um penalty numa pretensa falta de Lima Pereira, em jogada desenrolada fora da grande área coisa duns três metros; só que o guarda-redes Torres defendeu o penalty chutado por Manuel Fernandes, e, assim, manteve o nulo no resultado que, no fim das contas, não impediu o F C Porto de vencer justamente esse campeonato, com um ponto de avanço…


…Num desenlace diferente do que ocorrera na finalíssima da Taça de Portugal da época anterior, ganha pelo Sporting através do árbitro Mário Luís, de Santarém, que no dia seguinte foi incluído na comitiva leonina que foi em digressão à China…


E assim sucessivamente (andando para trás, a rebobinar no sentido de marcha-atrás) num rosário de vicissitudes, até se recuar aos anos sessentas, como «em 1967/68, numa das vezes em que esteve, de novo, o F C Porto “ombro a ombro” com o Benfica para a conquista do campeonato. Então, eis que, também aí, em jogo decisivo para as contas finais, embora ainda no decurso de Janeiro de 1968, o embate na Luz se saldou com um novo “roubo de igreja”. Pormenorizando: O Benfica fez 2-0 com um golo de Eusébio (logo no início, num penalty duvidoso, por pretensa mão de Rolando) e outro de Torres; o FC Porto empatou depois, através de dois golos de Valdir; e, fez ainda um 3º golo, por Manuel António, limpíssimo, com o peito, em cima da linha de golo, mas que o árbitro Porfírio Silva invalidou de forma incompreensível. De seguida Torres fez o 3º golo do Benfica, que venceria dessa forma o jogo por 3-2, e, praticamente o… campeonato.»

= Um encontro entre o F C Porto e Benfica, com Américo a blocar o esférico por entre um aglomerado de jogadores, antecipando-se a Torres e Eusébio, na presença expetante de Atraca e Rolando =

De permeio passaram-se anos da música dos anos de sessenta, daquela que me entrava no ouvido quase ainda sem entender nada das letras, mas gostando da musicalidade que ouvia nos rádios e nos gira-discos de jovens do tempo dos meus irmãos mais velhos. Cantigas ouvidas entre 1964 e 1965, mais ou menos, que eram mesmo de encantar e ainda hoje dão certa impressão de vivermos o que não vivemos, na prática. Sem fados e guitarradas, que foi coisa que nunca apreciamos, talvez por ser deveras de garganta empinada. Metendo a tal música yé yé, como se dizia. E que era um regalo naquelas sonoridades, na voz duma  Sylvie Vartan, com La Plus Belle… de France Gall, com  Poupée de cire, poupée de son… Francoise Hardy em Tous les garçons et les filles, mais, de forma diferente, em  Voilá… a brasileira Martinha, a sussurrar que (ela) Daria a minha vida… Gianni Morandi epicamente entoando In ginocchio da te… Bobby Solo a pôr-nos romanticamente pensativos com Una Lacrima Sul Viso… Gigliola Cinquetti a fazer-nos ver amigas e colegas como se nos dissessem Non ho l'età… e a imaginar como seria se fossemos o Cristophe, com Aline, e ainda também Les Marionetes... e outras que tais… apesar de nem termos jeito para cantorias. Num mundo que se nos ia deparando nas canções e artistas em voga, cujos títulos e nomes só de os lembrar faz vir à cabeça algumas cantigas que ainda trauteamos mentalmente. Do que ficou, pois dos sonhos de entusiasmo desportivo não havia nada para ninguém… dos nossos. O que fazia revoltar o puro sentimento que havia em nós.

= Pinto remata à baliza encarnada, perante o receio do defesa Cruz…=

Na época, continuando a recuar pelo tempo, o cinema musical de Espanha enchia corações e as atenções, outrotanto. Eram familiares  cenas em que o pequeno rouxinol Joselito cantava a Campanera, como se via nas telas de cinema que passava aqui pela Longra, também. E, retornando às recordações de infância, apareciam as ternas imagens do pequenito Marcelino a rezar na ternura da sua jovialidade infantil… 

E foi assim que ouvindo minha avó contar a história do Marcelino Pão e Vinho me pus a divagar…Enquanto o entusiasta Portista continuava a ver e sentir tudo o que ia acontecendo, a favor do clube protegido do regime e do seu vizinho mais próximo, em desfavor do F C Porto…

Era… foi assim que, também com outro Silva, mas com os mesmos espinhos, uns anos antes, perpetrou um outro «autêntico “roubo” a prejudicar o F C Porto, num célebre jogo com o Benfica, dessa vez no Estádio das Antas: na temporada de 1962/63, concretamente a 24 de Fevereiro de 1963.O FC Porto da época, superiormente orientado pelo húngaro Jorge Orth, que faleceria poucas semanas depois (como aqui recordamos em anterior artigo), disputava o título a par com o Benfica, até que veio esse jogo com carácter decisivo. O Benfica fez 1-0 por Simões, o F C Porto empatou por Azumir, seguindo-se posteriormente um lance que deixou as bancadas em polvorosa e toda a gente atónita e revoltada: numa pacífica disputa de bola, a cerca de um a dois metros fora da grande área, o Torres, em disputa com o corretíssimo Miguel Arcanjo, cai… e o árbitro, Reinaldo Silva, da jurisdição de Leiria, para espanto de toda a gente apontou para a marca de grande penalidade, marcando penalty contra o FC Porto, que depois foi convertido por Eusébio. E, assim, o Benfica ganharia por 2-1, passando a liderar esse campeonato, que… “conquistaria”».

= Azumir =

Recordo-me de, nesse tempo, se ter falado que o árbitro leiriense foi conotado com uma oferta choruda do presidente benfiquista, segundo se falou um automóvel dado por Vieira de Brito, e de os diretores do F C Porto bem terem tentado reclamar, nada conseguindo porém, a não ser terem sido entretanto confrontados com ameaças do regime vigente. Quase a papel químico com uma vergonhosa arbitragem de Rosa Nunes na final da Taça de Portugal de 1964, a pontos de, nesse jogo do Jamor, ter começado cedo a apitar contra os homens do Norte, quando o F C Porto fazia pressão inicial sobre o Benfica… tendo depois expulsado Jaime, sem nada de mais (a não ser por ter reclamado na marcação dum, mais um, penalty inexistente)… e depois foi todo um somar de asneiras, num chorrilho de habilidades, que fez o resultado tomar proporções escandalosas, à vista desarmada… O que só se compreendeu dias depois, quando se viu esse árbitro numa cerimónia oficial do clube da Luz… e levou Otto Glória, nesse tempo treinador no Porto, a afirmar: «O árbitro anulou todo o esforço duma região…»!


Essas peripécias caíram mal na cabeça do jovem ouvinte dos contos descritos pela minha avozinha, já naqueles tempos. A minha avó que, paralisada como estava, passando os dias no leito de sofrimento resignado, me contava longas e ternas histórias, levando a que eu passasse horas a fio sentado à sua beira, ao lado de sua cama, a ouvi-la e a começar a interessar-me por tudo o que fosse histórias e memórias. Desde a Carochinha, à bruxa cavalona, e não sei quantas lendas e contos, ela me descrevia com todos os pormenores. Até à história do tal filme do Marcelino Pão e Vinho. Filme dos inícios dos anos cinquenta, conforme muito mais tarde me apercebi, que, assim sendo, ela não viu, pois ficou retida na cama, em paralisia do corpo, precisamente por essa altura… mas deve ter ouvido contar, por sua vez, talvez no rádio que tinha na mesinha de cabeceira, e depois sabia expor com encantamento descritivo. A pontos que parecia que eu ouvia ranger as tábuas da escada carunchenta, enquanto Marcelino subia para o sótão…


Marcelino fora posto bebé à porta dum convento e foi criado pelos frades daquele cenóbio algures dos confins duma região rural. Tendo sido muito bem cuidado pelos monges, tornando-se o centro da vida conventual, familiarizado com seus protetores, os quais carinhosamente tratava pelos nomes das funções com que o velaram. A um, por exemplo, chamava-o de frei papinha, ao que sempre lhe dava de comer, e por aí adiante. Apesar dessa convivência, ele sentia falta de ter uma mãe. Um dia encontrou um amigo especial no sótão proibido... que mais não era que uma imagem de Cristo crucificado, com quem ele, na sua inocência pueril, conversava; e vendo-o naquele estado lhe passou a levar de comer, com pão e vinho que, sorrateiramente, ia buscar à cozinha, sem os seus amigos frades desconfiarem. Até que se deu o prodígio de Cristo lhe ter perguntado o que queria que lhe desse, em recompensa de sua bondade, e, como ele confidenciou que o que mais gostava era poder ver sua mãe, foi enfim levado a vê-la… dando-se um milagre, depois presenciado pelos frades que o viram inerte, junto à cruz, de onde partira pela mão de Cristo…

= Não se trata de tempos das balizas às costas, mas duma sessão de trabalho empenhado do plantel, com o guarda-redes Armando a empunhar uma barreira de atletismo para servir de suporte à parte física do grupo, no tempo do treinador brasileiro Paulo Amaral, que o segue à saída das escadas de acesso ao relvado. =

Ora, naquele tempo, eu, o pequeno ouvinte desse maravilhoso encantamento que ia escutando de minha avozinha, tinha mãe (eu tinha a minha mãe), felizmente; e nem me passava pela cabeça, ainda, sequer o que era isso de ser órfão. Não teria também ainda grande noção de outras coisas da vida, tudo me parecia normal, a não ser… o Porto não poder vencer, como merecia e devia. E pensei (para comigo, como numa prece): - Se Cristo me perguntasse, a mim, o que mais queria… eu, sem pestanejar, queria que o meu Porto fosse campeão, que ganhasse tudo e derrotasse aqueles malvados lá de baixo que só ganhavam com “comilice” e "falcatruas"… de árbitros e mandões….!


Era o que me vinha então à cabeça. O que mais queria poder ter.

Demorou anos, muitos anos, mas (até que enfim!) veio tempo em que o F C Porto, o meu Porto, passou a vencer mais que todos os outros... embora continuem a haver jogadas de bastidores e artimanhas de bafientos agentes do regime - contudo mais combatidas e eles denunciados, com os meios atuais da globalidade existente.

...Ai, como eu queria?!  E como ainda quero… sempre, mais!!!


Armando Pinto
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